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por Leonardo Amaral
Werner Herzog: uma forma de olhar, uma tentativa de descoberta – parte 4

Não, a África não é aqui. Nosso olhar viciado não é capaz, por vezes, de penetrar, sem vícios e pré-conceitos, o continente. Quando Sebastião Salgado fotografa figuras humanas quase putrefatas, ele olha, pelo filtro da lente, e congela uma realidade impregnada de outras imagens, históricas, é bem verdade, e dotadas de um falso não-julgamento. A câmera de Salgado está do lado de seus famigerados, no entanto, não há espaço para a dúvida, o que temos é uma imagem seca, definitiva, com ideia já formatada em acordo com uma visão do autor que acionou o disparador da câmera fotográfica.
Fata morgana que, traduzido, significa algo como acordar, amanhecer, traz um avião, ou melhor, a montagem de vários planos de um mesmo pouso de um avião, como se esse hesitasse a descoberta q1ue se propõe. O filme se divide em três fragmentos, três formas de se olhar o todo, quais sejam, a criação, o paraíso e a idade do ouro. Nada, em Fata morgana, é definitivo. Partimos, sob essas três divisões, a contemplação de um mesmo instante, de um mesmo lugar.
O olhar pronto e acabado de Sebastião Salgado, esteticamente impecável, encontra seu contraponto na câmera hesitante de Herzog, em seu passeio misterioso por vários grotões do continente africano. O fotógrafo brasileiro vê a cena, a capta, captação essa feita pelo jogo de contrastes, a beleza do trágico, uma visão única do que está em quadro. O cinema, até por possuir o movimento que falta à fotografia, possibilita a movimentação da câmera do cineasta alemão, que oscila e vagueia frente ao mistério, à dúvida daquilo que se coloca a filmar, a enquadrar. Werner Herzog faz essencialmente um cinema que se debate a todo instante, que mostra (e se expõe a) verdades, preconceitos, visões de mundo que, plano a plano, vão se desconstruindo. A primeira parte de Fata morgana traz a aurora, a primeira estrofe de uma poesia do desconhecido, um primeiro contato com o aparente.
O filme ficou, durante algum tempo, engavetado, mostrado apenas para alguns amigos. Um filme repleto de plasticidades (sem fazer dessas o grande mote), poético e ao mesmo tempo chocante em seu transe de sons, cores e efeitos. O capítulo do paraíso traz a narração do próprio diretor e talvez seja o mais sincero retrato de um cineasta em contemplação ao que filmou e ao que coloca na tela. O longa se assume barroco, expõe sua visão assustada e preconceituosa em relação ao seu próprio material imagético e talvez seja por isso a sensação de liberdade e descobrimento que o filme carrega. “A verdade que procuro no cinema é da ordem da poesia, do extático”, diz o diretor a respeito de sua obra e que aqui [em Fata morgana] ouso dizer ser a maior evidência desse cinema. Herzog toma essa realidade como ponto de partida para compor uma ação poética sobre as imagens que se confrontam frente a sua câmera. Fata morgana tem, em sua idade de ouro, a constatação da falibilidade das coisas, e, principalmente, do homem.
A câmera retoma, sempre inquieta, seu eterno movimento, enquanto Herzog constrói sua verdade subjetiva, cheia de defeitos e questionamentos sobre os mistérios e as questões trazidos pelo desconhecido. A fotografia de Salgado é a expressão da perfeição, do não-questionar, de uma visão de cima, poderosa, já construída. Fata morgana é a constatação da falha, de que nada deve ser absoluto, de que a África não é aqui, é lá, e de que o cinema, muito mais do que teatro, música e artifício, é poesia.
Filmes Citado:
Fata Morgana (idem, 1970/Werner Herzog)








