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por Leonardo Amaral
Les Dragueurs

Freddy se prepara para sair de casa com o único intuito de flertar (como já sugere o próprio título do filme, em francês, algo como paqueradores). Em torno do rio Sena, em plano-sequência de cerca de quatro minutos, Jean-Pierre Mocky, de cara, vai trazer o espectador para dentro do filme, sugá-lo em longos planos, por uma câmera ágil, com movimentos de zooms, em um cinema assumidamente cool (simpático filme). Freddy encontra Joseph, ambos partem de carro pelas ruas de Paris, filmada em todos os seus cantos, monumentos e bares, cabarés e luzes. Filme cuja única pretensão é a de narrar a odisséia noturna dos dois camaradas em sua busca por mulheres. Na narração, nada de cortes ágeis, jump cuts, montagem subversiva, metalinguagem, ao contrário, a opção sempre narrativa, mas com dois detalhes especiais: falamos de um filme cool que, no entanto, passa longe da auto-ostentação da maioria dos que fazem esse tipo de opção; contemporâneo aos filmes da Nouvelle vague, foge dos estúdios, de cenários elaborados, ganha as ruas mas não se desvincula jamais de seu caráter de cinema popular. Les dragueurs é sim uma comédia soft e popular, mas que não se centra, necessariamente, na dramatização ou humor físico, ao contrário, em sua mise en scène cuidadosa e virtuosa.
Homens que saem à procura de mulheres, belas, ao que pode ser dito. Um filme com intenções notadamente narrativas, sem, propriamente, se colocar em função dessa. Nada mais natural e orgânico que, se um dos dois vê uma bela moça no balcão, Mocky lance um movimento totalmente anti-naturalista de um zoom de baixo para cima, que de um plano geral vá fechar no rosto da mulher, que se vira para o espectador. Um cinema que sai às ruas, passeia de carro por elas, mas que quer misturar essa realidade ao próprio cinema. Paris é cenário para a construção filmíca. Cinema e rua também são lugares para um plano-sequência que contorna o Sena, para movimentos em carros sem necessidade de back projetion, ou mesmo uma chuva notadamente construída; se chove, a chuva é introduzida ao filme e a fotografia vai se apropriar dessa, o famoso chão molhado tão usado por fotógrafos no cinema.
Les dragueurs, de uma certa maneira, está exatamente no meio da mudança de fluxo do cinema francês. Rejeita o estúdio, mas não rejeita um tipo de narrativa. Anseia a rua, mas ainda carrega consigo uma iluminação que, em certo sentido, pode ser vista como acadêmica. Mas não se pode dizer que é, acima de tudo, um cinema convicto e fiel ao que se propõe a colocar em cena. E a grande diferença para o ‘cinema industrial de estúdio francês’ é a cena. Ainda há uma orientação narrativa, mas o interessante é o quanto os planos, ao mesmo tempo, possuem uma certa liberdade bastante própria do cinema moderno. Uma cena do filme que dá o exato tom disso acontece quando Freddy e Joseph flertam com duas garotas em uma praça parisiense. Mocky constrói uma gag, em que Charles Aznavour, um dos rapazes, acaba por se sentar no colo de uma senhora sem querer. Todos os personagens em cena começam a rir, diga-se de passagem, bastante. Riem de frente para a câmera, de forma a trazer, para a roda de risos, também o espectador. O riso pelo riso, a cena pela cena, abandono temporário da narrativa em favor do momento.
Filme Citado:
Les dragueurs (idem, 1959 – Jean-Pierre Mocky)








