por Leonardo Amaral

A Última Noite

Glauber Rocha dizia que fazer cinema é saber administrar o caos. E ninguém fazia isso melhor que Robert Altman. Ver um filme de Altman é ver o caos em ação, uma profusão de personagens que se cruzam, histórias de vida que se misturam, traços de uma sátira ao próprio modo de fazer cinema, de como as coisas funcionam, aliadas ao mesmo tempo à paixão pelo cinema (por azar a engenharia perdeu Robert e por sorte o cinema pôde ver Altman). Durante toda a carreira, Altman sempre agiu da maneira que quis, fez os filmes que quis e nunca se preocupou muito com as leis de um mercado, show business e suas ações. Ele era antagônico ao personagem de Tim Robbins em O Jogador.

A Prairie Home Companion, programa de rádio ouvido por várias pessoas nos EUA e com várias apresentações ao vivo, tem sua última noite marcada devido à venda do prédio onde é realizado, o Teatro Fitzgerald. E essa última noite é movimentada pelas apresentações e por acontecimentos os mais diversos. O caos altmaniano aliado a uma câmera sempre em movimento pontua toda a narrativa. Após o off inicial de Kevin Kline, começa a movimentação de pessoas por todo o prédio. Assemelhando-se nesse aspecto a Short Cuts e Assassinato em Godsford Park, várias histórias são apresentadas, dotadas de situações quase sempre cômicas e ao mesmo tempo singelas. O show começa e a câmera se difunde para o meio do palco. O movimento é constante e enquanto o programa acontece no palco, tudo também acontece nos bastidores. Como em Assassinato em Godsford Park (onde o mistério é pretexto), Altman utiliza uma ação central para mostrar as interações pessoais de bastidores. Desde a gravidez da produtora, o relacionamento familiar de mãe, filha, tia e irmão, como também relacionamentos amorosos, passado dos personagens e situações que marcam a personalidade de cada. Tudo isso enquanto a última noite do programa não pára nem um minuto, nem mesmo no intervalo, quando as cortinas se abaixam.

Contando ainda com elementos de realismo fantástico como o trânsito de uma personagem fantasma, a magia daquela última recebe contornos de fábula, podendo-se enxergar até mesmo um otimismo que lembra o de Frank Capra, principalmente pela personagem panglossiana de Merryl Streep. Altman sempre teve uma forma bastante profunda e interessante de entender a humanidade presente nas pessoas, até mesmo as falhas do ser, como em O jogador. Nessa brincadeira com o making movies hollywoodiano, Altman satiriza todas as situações, etapas e pessoas envolvidas no processo. Transita por gêneros, a câmera funciona como fornecedora das informações (como em Hitchcock), a estória caminha para um final feliz e irônico. Aliás, a mesma ironia e sátira que o diretor, anos atrás, buscou para construir uma trama sobre Guerra da Coréia em MASH.

Essa maneira peculiar cunhada ao longo de uma carreira de mais de oitenta filmes trouxe não só admiradores, como também seguidores, como no caso de Paul Thomas Anderson. É impossível não enxergar um pouco de Altman na multi-história de Magnólia ou no submundo pornográfico de Boogie nights. PT Anderson inclusive acompanhou parte das filmagens de A Última Noite. Nos filmes de Anderson, muitas vezes podemos ver a mesma câmera que quase nunca pára, as interações entre as várias pessoas, as diferenças entre elas e a câmera que ao mesmo tempo estiliza e informa.

O plano-seqüência do início de O Jogador é um grande exemplo altmaniano dessa articulação: ao mesmo tempo em que se pode ver a plasticidade de um plano-seqüência de oito minutos, vêem-se dois homens conversando sobre esse mesmo artifício utilizado por Orson Welles. Além de uma análise crua do relacionamento de produtores e roteiristas, a base da trama vai se estabelecendo através das informações contidas nos bilhetes que Tim Robbins recebe. Em oito minutos, Altman, de forma estilizada, apresenta o universo o qual vai se estabelecer durante todo o filme, interessantemente, da mesma maneira que Orson Welles fez em Marca da Maldade.
Aquela acaba sendo a última noite para A Prairie Home Companion. Mesmo depois de várias catástrofes, o show se realizou. Coincidentemente (ou não, como queiram), esse também acabou sendo o último filme da carreira de Robert Altman, falecido no dia 21 de novembro. Sorte nossa a película ser capaz de guardar todos os frames desse grande administrador do caos. A Robert Altman fica um muito obrigado por tudo.


Filmes Citados:
O Jogador (The player, 1992/Robert Altman)
M*A*S*H* (idem, 1970/Robert Altman)
Short Cuts (idem, 1993/Robert Altman)
Assassinato em Godsford Park (Gosford Park, 2001/Robert Altman)
Boogie Nights (idem, 1997/Paul Thomas Anderson)
Magnolia (idem, 1999/Paul Thomas Anderson)
A marca da maldade (Touch of Devil, 1958/Orson Welles)