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por Leonardo Amaral
Distrito 9: entre os desvios e a autenticidade

A imagem-mercadoria, a sociedade do espetáculo de Debord, as relações mediadas pelo seu conteúdo imagético, a hibridização dos gêneros televisivos e cinematográficos, a realidade que invade a ficção e vice e versa por meio dos telejornais. Eis a encenação como ponto-chave da sociedade da imagem, em que a televisão invade e performa fortemente a vida, tornando-se algo indissociável dessa na atualidade.
Distrito 9 começa com Wikus van der Merwe de frente para a câmera, eles nos olha, nos fala, performa, confunde, em primeiro momento, a percepção do espectador que, desavisado, intui estar assistindo a um documentário (ou, na melhor das hipóteses, um mockumentary). O personagem fala da família, assim como também nos falam outras vozes, sejam a da sua mulher, de um outro jornalista, ou mesmo de algum etnógrafo. Mais eis que o filme estabelece um segundo movimento, ao introduzir na fala de Wikus a descrição do que viria a ser uma invasão alienígena em Johannesburgo: a ficção adentra, mas a estética doc-televisão ainda impera, os universos se entrelaçam e, mesmo que não acreditemos mais naquilo que vemos em cena como documentário (obviamente), somos ainda traídos por nosso senso de percepção bombardeado no dia-a-dia por imagens em câmeras rápidas, zooms, sons da realidade.
A crença é possível pela força imagética daquilo que nos é oferecido. A câmera na mão, a relação com o “ao vivo” empreendido no filme, a rapidez dos cortes, a invasão da nave-mãe, a tensão possibilitada pela montagem e narrativa, agora estamos diante da descoberta: mais uma vez Distrito 9 nos trai – como, aliás, vai ocorrer durante todo o tempo, um filme que não se cansa de nos surpreender, de abandonar personagens, formas narrativas quando julgar ser necessário –, nos surpreende ao expor, seja na narração em off, seja no plano do interior, alienígenas subnutridos, inofensivos, dignos de dó. O cinema quase sempre imprime uma visão de perigo em relação a seres vindos de outro lugar. É sempre o novo, o desconhecido, que determina esse tipo de sentimento.
Neil Blomkamp trabalha a inversão; oprimidos aqui são os seres do espaço. A nave parada, sobre a cidade, durante vinte anos, não é um objeto opressor; ao contrário, se constitui como paisagem. Indesejados são os pobres alienígenas, marginais, segregados, humilhados, lançados à sorte, impelidos a trocar armas e partes de seus corpos para obterem comida (de gato). Falamos aqui da África do Sul, que viveu anos de apartheid, que os revive agora, com monstros do espaço reconhecidos sobre a alcunha de camarões, denominação que, para além do pejorativo, carrega consigo a marca social.
O filme coloca suas cartas na mesa, o jogo se dá na relação entre humanos e alienígenas, mas a diferença se estabelece em outras esferas de relacionamento. Os nigerianos têm um papel fundamental nessa espinha dorsal da sociedade de Johannesburgo criada por Blomkamp: falamos aqui de uma cadeia alimentar complexa, em que brancos dominam as bases do sistema da MNU, se configuram dentro de um poder oficial; os nigerianos são o poder paralelo, na base do sistema, alimentam-se (literalmente) dos aliens, meros consumidores primários da teia social. Tudo isso ocorre em frente a uma câmera ágil de um documentário “real” da televisão oficialesca criada dentro de Distrito 9. O diretor encontra nessa chave a crença para o que traz à tela, e a partir daí estabelece os conflitos que se exacerbam durante esses vinte anos de convivência nada pacifica.
Wikus é promovido dentro da MNU e passa a se ocupar da expulsão dos aliens da cidade. A trajetória do personagem diz diretamente as opções do filme, de como esse se constrói, das referências múltiplas nele existentes, da forma como as questões midiáticas são apresentadas e orientadas dentro do longa, além, é claro, das escolhas (equivocadas ou não, ou talvez isso nem seja umas das coisas mais importantes) que são feitas.
Vemos o personagem de frente para um alienígena enquanto é flagrado por uma câmera. Ele tenta convencê-lo a assinar um documento de extradição, seguidamente recusado pela criatura. Ele o ameaça e pede para que um dos atiradores lhe aponte a arma e o torture física e psicologicamente. Segundos após, coloca a mão em frente da câmera e a afasta para que o ato não seja filmado. Wikus repete essa ação por diversas vezes, e, nesse primeiro momento de Distrito 9, é essa a tônica que se apresenta. Neil entende que o mundo é essa relação cínica com a imagem, esse contato midiático, essa aproximação fake e representativa que invade os lares dos espectadores, e agora, em seu filme, ele reproduz esse discurso, que nada tem de social e tudo tem de representativo, multiculturalista e híbrido.
Por vezes nos sentimos em um desses programas sensacionalistas, mas há sempre um cinismo na imagem, ou na sua constituição – é impossível não trazer a referência de Paul Verhoeven e as evidentes comparações com Tropas Estelares (não no sentido estético, mas de como lidar com a representação), com Vingador do Futuro ou, até certo ponto, com Robocop, no trato do homem (aqui falamos das relações humanas estabelecidas dentro do filme para além da óbvia dos instantes de ação e tiros do final, em que vemos o ser humano encapsulado pela máquina) ou também com John Carpenter nos jogos sociais e de interesse, no estatuto do poder de um Fuga de Nova York, e, principalmente, Fuga de Los Angeles.
Em Southland Tales (texto de João Toledo sobre o filme aqui), Richard Kelly já havia mostrado o quanto é tênue e ao mesmo tempo complexa a relação entre os vários formatos e mídias no mundo de hoje. Se a sociedade do espetáculo é citada acima, é preciso dizer, isso diz respeito a uma atmosfera de realidade indissociável do que é ou não representação nos dias atuais. Neil Blomkamp traz para Distrito 9 todos os artifícios, mídias, formas e influências da imagem sem apego nenhum a essas: quando é preciso abandonar qualquer artifício (seja narrativo, mas, em especial, estético), o diretor sul-africano não pensa duas vezes e faz o que julga ser o melhor para o seu filme, mesmo que isso incorra em problemas, como as nuances sentimentaloides do alien Chris, que tem uma crise de tristeza ao ver o amigo morto na mesa do laboratório, ou nos clichês por vezes exagerados de heroísmo de Wikes.
Por sinal, o personagem, após invadir a casa de Chris e descobrir lá um tubo de combustível, acaba contaminado e passa por uma metamorfose que culmina em uma nova parte da narrativa, em que a relação da câmera na mão do programa de televisão dá lugar às tentativas desse homem em escapar do destino ao qual se vê marcado e em cuja mão vemos crescer presas semelhantes às dos “camarões” – processo que em muitos momentos lembra o de John Getz em A Mosca. Eis o abandono completo de uma forma para uma nova, que traz consigo um outro tipo de imersão narrativa.
Van der Merwe é levado ao laboratório onde é submetido a testes. Mais uma vez, Distrito 9 é o lugar do cinema do politicamente incorreto (Cronenberg explode cabeças em Scanners, Blomkamp faz o mesmo com corpos humanos aqui, com direito a sangue e vísceras espirrarem na lente), não existe um intuito de se condenar e julgar ações e personagens, até porque esse mesmo homem passa por inúmeras transformações físicas e psicológicas dentro do filme, e suas decisões caminham cada vez mais para o pensamento instintivo. Os vilões são todos – desde os nigerianos predatórios aos atiradores da MNU –, e subjugados; humanizados mesmo apenas são os extraterrestres. É para o distrito nove que se dirige Wikus, obrigado a comer comida de gato, dormir entre lixos, se refugiar na casa de um deles. E é com uma dessas criaturas do espaço que ele vai empreender um resgate ao combustível confiscado pela MNU. Distrito 9, mais uma vez, abandona um narrativa para se lançar em outra, empreendimentos do diretor, “equivocados” ou não, que nos levam agora a uma incursão no cinema de ação, com rajadas de bazuca alien a desfragmentar corpos em tela, a destruir o espaço. Neil Blomkamp não se sente nem um pouco acanhado em mostrar que, se existe uma verdade no seu filme, essa passa pela destruição, e que todas as escolhas por ele empreendidas se constituem como opções autênticas para o cinema que ele se propõe a fazer.
Chris e Wikus, somente os dois, conseguem passar por todo um exército de homens para chegar ao objetivo. E ambos utilizam a arma que os aliens trocavam com os nigerianos por comida. Eis a pergunta: por que não uma insurreição alien contra os humanos, já que essas armas são de um poder devastador? Certo ou errado, por mais que se concentre numa trajetória clássica do herói (em especial o hollywoodiano, com direito aos clichês de décadas do sacrifício em prol do outro, da honra), o que existe em Distrito 9, por mais que às vezes o filme não acredite piamente na força da história que se lança a mostrar, é uma tentativa autêntica e louvável de se carregar todas essas referências, não negá-las, mas colocá-las, todas elas, em favor do filme. Se o roteiro possui suas questões que não se fecham, a imagem em alguns momentos é de tamanha força que nos deixamos levar por aquilo que está em cena, como se cada uma delas contivesse em si uma verdade diferente e autêntica para o filme.
O mesmo personagem que, ao final, combate contra toda a armada de Johannesburgo para que Chris e o filho fujam é também aquele que, pouco antes, agride o extraterrestre que diz poder fazê-lo voltar ao normal somente em três anos. São as contradições de um ser que afirmam diretamente as contradições do próprio filme envolvido em camadas midiáticas e psicológicas sem um discurso totalizante que o simbolize. Distrito 9 é versão possível para um cinema em que as referências não vêm somente do próprio cinema, como outrora: o que temos são as versões de jogos, internet, relações com televisão, celulares. Muda a relação com o mundo, as diversas formas de mediações, assim como se altera o perfil dos novos diretores.
O longa de Neil Blomkamp é a expressão do nosso tempo, com seus equívocos, preconceitos e conceitos, o que, de alguma maneira, reflete na suspensão da crença em relação àquilo que propõe como cinema: não por menos os vários formatos, a hibridização constante, o percurso torto, esquizofrênico e, até certo ponto, esquemático, do personagem principal, que na verdade é o próprio filme. Nada mais condizente do que se fazer um filme sobre um novo tipo de apartheid, em que se mostra muito mais convincente numa era de alienígenas invasores, indulgentes e postos de lado na sociedade. Num universo de cinismo, esses camarões são os marginais, e o intuito aqui é bem menos denúncia social (se é que ela existe) e muito mais o reflexo do próprio tempo.
Eis em cena ETs catadores de lixo e não um E.T. spielberguiano: o cinema é o lugar da representação de um lócus temporal. Ao mesmo tempo, toda sociedade se alimenta de seus mitos, e nesse ponto Distrito 9 é brilhante ao não revelar o final de seu (anti)herói: o retorno do mockumentary ao fim não nos informa se Wikus morreu, se sobreviveu, tudo agora são hipóteses, crenças, seguidos todos de abnegações. O filme de Blomkamp é errático como é a rede de mentiras, enganos e fatos que nos cercam no cotidiano. Nesse universo de representações, aliens são aqueles mais dotados de humanismo: em Distrito 9, nada mais autêntico e representativo.
Filmes Citados:
Distrito 9 (District 9, 2008 – Neil Blomkamp)
Robocop (idem, 1987 - Paul Verhoeven)
Vingador do Futuro (Total Recall, 1990 – Paul Verhoeven)
Tropas Estelares (Starship Troopers, 1998 – Paul Verhoeven)
Fuga de Nova York (Escape from New York, 1981 – John Carpenter)
Fuga de Los Angeles (Escape from LA, 1997 – John Carpenter)
Southland Tales (idem, 2006 – Richard Kelly)
A Mosca (The Fly, 1986 – David Cronenberg)
Scanners (idem, 1981 – David Cronenberg)
E.T. o Extraterrestre (E.T., the extra-terrestrial, 1982 – Steven Spielberg)








