por Leonardo Amaral

Estrela Solitária

Ao assistir à Estrela Solitária, pude observar o óbvio, ou seja, Wim Wenders nunca abandonará os planos gerais dotados de uma plasticidade que se encaixa perfeitamente na narrativa da maioria de seus filmes. Mas, curiosamente, em certos momentos, Estrela Solitária quebra a forma Wenders de narrativa, principalmente quando o diretor alemão utiliza uma maneira de filmar característica dos filmes de western B como O Dólar furado. Essa alternância na planificação dá grande suporte ao mundo incomum e desconfigurado do personagem central Howard, vivido por Sam Shepard. Isso também acontece em Paris, Texas, entretanto, lá a visão é bastante diferente da que acontece aqui em Estrela Solitária. No premiado filme de 1984 as imagens são mais limpas, os personagens mais complexos em seus sentimentos, sendo que os mesmos são muito mais contidos e angustiados. Paris, Texas se assemelha mais a filmes como Profissão: repórter, de Antonioni, e Central do Brasil, de Walter Salles, enquanto Estrela Solitária vai um pouco na linha de Despedida em Las Vegas, de Mike Figgis, apesar de ser o inverso no que diz respeito aos deletérios do personagem envolvido.

Road movies são propostas cinematográficas interessantes porque através da “fuga” dos personagens, somos metaforicamente colocados como integrantes daquela viagem. Somos tomados pelo sentimento de culpa e pela tentativa de reconstrução interior de Travis (Harry Dean Stanton) em Paris, Texas, assim como pela redescoberta emotiva de Dora (Fernanda Montenegro) em Central do Brasil. Nesse aspecto da busca pela identidade perdida, Howard, Dora e Travis podem ser vistos como a metáfora da vida apresentada como uma estrada cheia de entroncamentos. Faz-se necessária a decisão de qual caminho deve ser tomado. E em relação a isso, todos os três acabam tendo destinos diferentes. Como síntese para todos os destinos dessas pessoas, o movimento final da câmera que Antonioni faz em Profissão repórter (afastamento da câmera em relação ao quarto onde estava Jack Nicholson) fica em nosso imagético cinematográfico. Ao rever o filme de 1975, pude entender muito melhor Dora e Travis. Pude compreender que cada plano geral que vai se delineando pela trama mostra o domínio da narrativa tanto de Wenders quanto de Salles, além de Antonioni.

A partir da análise e da relação desses três filmes “pé na estrada”, é possível definir Howard como um personagem não tão complexo como Travis e Dora, porém, ele é aquele que mais nos causa um sentimento de simpatia pela forma como é interpretado por Sam Shepard e decupado por Wenders. Aliás, todos os personagens do filme são excêntricos e exóticos, afinal, ninguém em sã consciência carregaria as cinzas da mãe por todos os locais da maneira como Sky (Sarah Polley) carrega. As explicações para o comportamento de cada um desses personagens vão sendo dadas através das informações a respeito da carreira de ator de Howard Spence e também pelas relações pessoais que vão se estabelecendo durante todo o road movie.

O abandono do set de filmagem por parte de Howard mostra o caráter quixotesco próximo ao de Nicolas Cage em Despedida em Las Vegas. Ambos apresentam um maneirismo excêntrico em suas atitudes e também seguem seu caminho errante tentando derrotar seus respectivos moinhos de vento. Entretanto, o propósito de um é antagônico ao do outro. Enquanto Howard tenta reconstruir sua vida ao retornar para sua cidade natal com o objetivo de consertar os erros do passado, Ben Sanderson (Nicolas Cage) enxerga como única solução a deterioração alcoólica e psíquica de sua vida. Talvez ser Dom Quixote seja mesmo ter que colocar o pé na estrada, por mais torta que seja a próxima rota.

Filmes Citados:
O Dólar Furado (One Silver Dolar, 1965/Kelvin Jackson Padget)
Paris, Texas (Idem, 1984/Wim Wenders)
Profissão: Repórter (Profisione: Repórter,1975/Michelangelo Antonioni)
Central do Brasil (Idem, 1998/Walter Salles)
Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas, 1995/Mike Figgis)