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por Leonardo Amaral
Esperando Telê, de Rubens Rewald & Tales Ab’Saber
por Leonardo Amaral
Futebol é um fluxo, flui na sua lógica esportiva, é ritmo, é o caminho incerto que pode ocorrer no gol ou na bola na trave que levanta o torcedor da arquibancada, que o faz executar, durante todo o espetáculo, um movimento constante de sobe e desce, movido por não se sabe exatamente qual motivo, mas com certeza ligado a um sentimento substancial: paixão. As frases, em lettering, de Mário Filho são a reflexão metafísica do futebol brasileiro, mais que um esporte, um tipo de modus Vivendi.
Esperando Telê tenha uma linha maestra que guiará o filme: essa eterna busca pelo encontro, que nunca se dá, que se encaminha frente a impossibilidades. Telê nunca vem diretamente, mas perpassa todo o filme, e sua história se confunde com a do futebol, com Pelé, com os jogos nos campinhos de terra de todo o país. O filme de Rubens Rewald e Tales Ab’Saber segue o fluxo, se constrói nessas intermitências, encontra-se nos meandros da televisão como o personagem que media as relações, dá voz à Telê Santana, expõe suas contradições. Eis o enigma: o fracasso da Copa de 1982, mcguffin para se falar de futebol e cinema. Ao colocar a câmera na mão, percorrer e discutir pelas ruas, o futebol se torna cinema, e todas as discussões que suscita são também discussões cinematográficas.
O filme tem o olhar do encantamento frente ao seu objeto,a hesitação de se filmar o futebol. Daí essa câmera inquieta, verdadeira, que se embrenha nos velhos campos de terra batida, com essas jogadores anônimos que se confundem com a imagem da televisão (a montagem procura sempre deixar esses lapsos), da câmera que se aproxima do aparato para captá-lo em sua forma, na distorção das cores a forma cinematográfica em comunhão com o seu objeto, sua temática: falamos aqui de estética.
Não por menos,longos planos sequências com câmera na mão percorrem o Centro de Treinamentos de São Paulo em busca de Telê, ao som de uma música que mais do que refletir sobre a década de 1990, traz consigo a própria expressão desse momento, a pedra fundamental do filme, esse confronto entre futebol arte e futebol objetivo - o plano de Carlos Alberto Parreira, com terno rosa no programa Cartão Verde é uma excelente expressão de todo o periodo, sua sisudez representa o fim da arte no esporte -, entraves de um novo paradigma, seja para o futebol mas também para o cinema, já que falamos de um governo Collor e das impossibilidades da realização: o cinema brasileiro precisava buscar na forma a sua expressão, como a de pegar a câmera e procurar em toda a cidade o futebol.
Vemos futebol em cada esquina, na praia, no futevôlei jogado, na câmera que, em seu zigue-zague, pára para ver um senhor e um rapaz trocarem bola ao ar. Em dado momento, o senhor controla a bola na cabeça, deita-se, é observado pelo rapaz, por outro no canto do enquadramento, representação de todo o filme: que em sua procura encontra esses pequenos momentos, como a parada em um campinho encontrado ao lado da rodovia em que os dois param para filmar.
Ao final, no carro, a evidência do não-encontro, mas pouco importa se há encontro, o futebol, assim como o cinema, também é o lugar do desencontro, ambos refletem, de alguma forma, a hesitação de se viver, de estar em confronto com o mundo, seja para frustração ou êxito: o que vale são esses momentos, simbolos de um tempo que ainda reverberam hoje.
*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Filmes Citados:
Esperando Telê (idem, 2009 - Rubens Rewald & Tales Ab’Saber)








