por Mariana Souto

Mil Anos de Orações e Clube da Felicidade e da Sorte

 

“Um cisne era um pato que esticou seu pescoço na esperança de se tornar um ganso, e agora veja - ficou muito bonito para se comer”. Essa narração dá início a Clube da Felicidade e da Sorte, do sino-americano Wayne Wang, diretor que também utiliza lendas e ditados para batizar seu novo filme: é preciso Mil Anos de Orações para compartilhar a vida com alguém. Essas duas anedotas, pedaços da tradição chinesa, revelam muito sobre a obra do diretor e sua concepção de família, relacionamentos, tempo e imigração – questões centrais em seu cinema.

 

A metáfora do cisne, que abre e fecha o Clube da Felicidade e da Sorte, fala não só sobre a figura da mulher e a esperança, como pode também ser ampliada para a imigração chinesa nos Estados Unidos. O povo da China rumou esperançoso para aquele país em busca de liberdade e novas perspectivas, mas teve que sofrer adaptações em seu modo de viver, de falar. Não eram mais chineses, tampouco americanos; tornaram-se um terceiro ser que não era mais pato e nem ganso, um povo às voltas com questões de identidade, influências externas e ruptura de tradições. O pato que tornou-se muito bonito para comer pode ser visto, mais do que uma transformação e metamorfose que envolve beleza, uma questão de estratégia de sobrevivência.

 

A dificuldade de definição cultural e a mistura de origens são sintomáticas do próprio cinema de Wang. Mil Anos de Orações começa econômico e rigoroso tanto narrativa quanto esteticamente, semelhante a muitos dos filmes orientais contemporâneos, sobretudo os japoneses como Renascer. A rotina do pai Chi e da filha Yilan é vista em seu próprio ritmo, em vários planos longos, estáticos e solitários, com poucos diálogos e enquadramentos bem calculados. Ações corriqueiras são ressaltadas, assim como o isolamento emocional dos dois personagens. O silêncio e a passagem do tempo são sentidas de forma contemplativa, de uma maneira minimalista tipicamente oriental.

 

No terceiro ato do filme, todo o seu tom muda e a sutileza se despede para dar lugar a um melodrama familiar. Chi e Yilan lavam a roupa suja e falam tudo o que vinham guardando de uma forma quase novelesca. Já Clube da Felicidade e da Sorte se filia, do início ao fim, ao gênero do melodrama, e também trata da relação entre pais e filhos – ou mães e filhas, já que o filme de 1993 é todo centrado em personagens femininas. A abordagem da relação entre pais e filhos está diretamente ligada à passagem do tempo e à transmissão de valores, da cultura e é bastante peculiar em Wayne Wang já que, nesses dois filmes, os pais representam a geração nascida na China, imigrante para os Estados Unidos e os filhos já fazem parte da geração americana. O choque entre essas gerações, portanto, é quase inevitável e permeada por diversas questões que não apenas as familiares. O embate entre o tradicional e o moderno, a China e os Estados Unidos, o oriente e o ocidente, a repressão e liberdade estão, de alguma forma, ali.

 

Ainda que os filmes tratem da imigração e da adaptação dos chineses à cultura americana, boa parte dos personagens de Wayne Wang se relaciona ou entre si ou com imigrantes de outros países. Em Mil Anos de Orações, Chi conhece uma senhora iraniana e Yilan namora um russo. Parece que, ao menos na visão de Wang, os imigrantes fazem dos Estados Unidos um lar, um lugar onde podem ter liberdades que não teriam em seu próprio país, mas não interagem verdadeiramente com a cultura local. Fazem da nova morada um novo espaço geográfico para sua própria cultura, ainda que esta sofra várias interferências. Em Clube, a mãe de June fala que considerava sua filha a menor pianista prodígio “deste lado da China”, e não “dos Estados Unidos”. Os personagens provavelmente se identificam com outros imigrantes em sua situação de incomunicabilidade e distância da terra natal e encontram neles uma espécie de acolhimento.

 

Os americanos, nas raras vezes em que aparecem, são retratados de forma bastante peculiar. Em Mil Anos de Orações, os protagonistas cruzam com cerca de 4 ou 5 americanos ao longo de todo o filme, de maneira breve. Há uma loira falante na piscina, um vendedor esquisito, um segurança intransigente, um síndico estranho. Praticamente todas as cenas de interação são marcadas pelo constrangimento, pelo embaraço, por mais simples que seja a situação. Soma-se a isso o fato de que quase todo o filme é passado dentro de casa, o que gera uma impressão de confinamento de uma colônia ou pequena cultura que atravessa dificuldades de adaptação e relacionamento.

 

Neste filme, os americanos são retratados ora como idiotas, ora como pessoas estranhas, de olhos arregalados e comentários esdrúxulos. Wayne Wang os pinta como exóticos, mas não de uma forma positiva, o que é bastante diferente, por exemplo, da visão carinhosa e engraçada dos irmãos Coen sobre seus personagens extravagantes. Os Coen se interessam pelas características típicas americanas e constroem personagens um tanto quanto carismáticos em sua esquisitice, sem deixar de lado a forte ironia e a visão crítica que lhes são características. Já para Wang, os americanos soam como figuras que intimidam até mesmo em sua excessiva simpatia e deixam o protagonista sem lugar, como a loira da piscina ou a acompanhante do vôo que lhe tece elogios. Talvez essa percepção distorcida não seja exatamente a visão de Wang, mas certamente parece ser a de seus personagens, deslocados naquele ambiente e sem saber lidar com as tagarelices americanas.

 

Retomar Clube da Felicidade e da Sorte fornece auxílio para uma melhor compreensão de Mil Anos de Orações, sobretudo no que diz respeito à virada melodramática do final que pode parecer um desfecho incoerente e inesperado. Em um filme que se desenvolvia de forma contida e estudada, mas não por isso menos carregada de emoção, Wang muda de tom e escorrega para os clichês. A análise do conjunto desses dois filmes, que se centram na imigração chinesa, propicia um entendimento mais rico da visão de um diretor proveniente desse contexto e que talvez por isso mesmo pareça um tanto quanto confuso. Ao ler nas entrelinhas de ambos os filmes, percebe-se um cineasta um pouco perdido entre as duas culturas, entre tons e estéticas bastante diversos, entre o excesso e a economia.

  

Filmes Citados:

Clube da Felicidade e da Sorte (The Joy Luck Club, 1993/ Wayne Wang)

Mil Anos de Orações (A Thousand Years of Good Prayers, 2007/ Wayne Wang)

Renascer (Ai no yokan, 2007/ Masahiro Kobayashi)