por Marcelo Miranda

Pachamama, de Eryk Rocha*

por Marcelo Miranda

 

Existe uma armadilha básica nas intenções de Pachamama enquanto obra cinematográfica. Logo nos primeiros minutos, ouvimos a voz do diretor Eryk Rocha narrando que o filme a ser visto deverá surgir a partir do que vai ser testemunhado e documentado na viagem ali retratada (pelas estradas e florestas do Brasil, Peru e Bolívia) – ou seja, a proposta explícita é colocar o espectador ao lado de Eryk naquele trajeto. Porém, já reside aí um paradoxo: é impossível ver nascer o que quer que seja num trabalho já devidamente filmado, montado e agora projetado. O que será visto, sempre, sem exceção, é o resultado das reflexões de Eryk acerca de sua viagem, e jamais os caminhos que o levaram a essas reflexões. Pachamama consiste, portanto, num discurso nascido a partir de sua premissa, e as próprias escolhas estéticas utilizadas pelo diretor são, em si mesmas, definições de rumo impossíveis de ser modificados.

 

Uma segunda armadilha é a de que Pachamama trataria das peculiaridades, dos acasos, das incertezas, surgidas na viagem de Eryk – como ele também narra no começo. Se a primeira meia hora parece realmente trabalhar esse artifício – e a forte imagem dos olhos azuis de um garoto montada com a visão de dois meninos de cueca correndo pela estrada dão mesmo a noção de que o cineasta está em busca do fascínio da simplicidade, da imagem enquanto significado dela mesma e sem maiores cargas senão a de representar o que efetivamente aparece na tela –, logo isso será deixado de lado. Eryk abandona por algum tempo a sua própria premissa em prol de um cinema discursivo-ideológico que vai se sustentar (e buscar legitimidade) na “voz do povo”.

 

Assim, veremos diversas figuras anônimas discursando contra o atual estado político da América Latina (em especial Peru e Bolívia). Como se não bastassem esses entrevistados das ruas, Eryk insere várias imagens jornalísticas de Evo Morales (presidente boliviano) falando a respeito da autonomia buscada por seu governo, ou então a voz do presidente Lula nos típicos comentários em cima do muro que tanto o caracterizam, ou, mais confuso ainda, uma colagem de diversos líderes do continente meio atrapalhados na tentativa de se posicionar enquanto figuras de comando.

 

Pachamama, neste sentido, parece querer se encaixar dentro dos trabalhos anteriores de Eryk (em especial Intervalo Clandestino, justamente sobre processos políticos) e perde o caráter de captação do trivial, tornando-se a voz que busca captar uma realidade para além das capacidades da câmera ou dos demais recursos de cinema à disposição do realizador. Por mais que as imagens registradas tenham real valor histórico e mesmo estético na forma como são colocadas no filme, sobra muito pouco do que o cineasta está realmente interessado em falar ou mostrar. Tanto que, quando o filme retoma a vertente inicial – e termina após um belíssimo e expressivo plano de dois garotos pendurados na traseira do carro onde Eryk está posicionado, enquanto amigos da dupla tentam alcançar o mesmo veículo –, ele volta a ser um projeto sobre o significado puro e simples do que é apresentado na imagem.

 

São nestes instantes, e também na sensibilidade de Eryk de criar um arco expressivo (o primeiro plano é de uma estrada asfaltada; o último é o de uma estrada de terra batida – é como se ele próprio, Eryk, tivesse saído da modernidade e ido ao encontro da verdadeira civilização, daquela que de fato fundou os alicerces da América, da “mãe-terra”, expressão em português referente ao título do filme), que Pachamama ganha força e potência muito mais legítimas e perturbadoras do que as tentativas de se fazer panfleto a favor ou contra o que quer que seja.

 

Filmes citados

Intervalo Clandestino (idem, 2006 / Eryk Rocha)

Pachamama (idem, 2008 / Eryk Rocha)

*Texto escrito no Indie 2008