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por Marcelo Miranda
São Paulo S.A e A Via Láctea: fragmentos de vários discursos
por Marcelo Miranda
Tanto São Paulo S.A quanto A Via Láctea se iniciam a partir de um rompimento amoroso: no primeiro, Eva Wilma é largada no chão por Walmor Chagas; no segundo, Alice Braga termina o namoro com Marco Ricca pelo telefone. Nas duas situações, os personagens masculinos saem andando pelas ruas movimentadas de São Paulo, em busca de algo que nem eles mesmos talvez sejam capazes de definir. De cara, uma diferença: num caso, o homem é quem larga a mulher; no outro, é a mulher a tomar a iniciativa do término. Tal primeira distinção fará total sentido na trajetória dos protagonistas dos filmes.
Este díptico entre a produção de Luiz Sérgio Person, datada de 1965, e a de Lina Chamie, lançada neste 2007, fez parte da programação da I Mostra CineBH. A idéia era proporcionar o diálogo histórico entre dois filmes realizados em tempos diferentes e que mantenham relações nos dias de hoje. Como qualquer diálogo que se preze, a graça está não apenas nas consonâncias de um e outro, mas também nas diferenças. Seguindo tal linha, o que mais coloca São Paulo S.A num canto e A Via Láctea em outro é a forma como os respectivos discursos são desenvolvidos – em cada um, o jogo com o espectador é razoavelmente diferente.
Como já dito, os dois filmes se iniciam com homens mergulhando no caos de São Paulo. No caso do longa de Person, Carlos (Walmor Chagas) tem um desentendimento com a esposa e segue numa longa caminhada sem rumo. No trajeto, recorda-se de vários momentos de sua vida nos três últimos anos, desde relacionamentos até percalços no trabalho, num período em que a industrialização tomava a cidade. Aqui, o diretor cria um constante vai-e-vém no tempo, utilizando a montagem como forma de adentrar as recordações de Carlos – e, assim como acontece na realidade, as lembranças não vêm em ordem cronológica. Um elemento de cena reaviva dezenas de instantes na cabeça do atormentado jovem, a simples menção a um nome ou a um evento é suficiente para ele voltar a determinadas situações e “enxergá-las” todas novamente.
Fica claro, portanto, que as imagens vindas de São Paulo S.A, ainda que nascidas da mente de Carlos, são calcadas firmemente em acontecimentos factuais. Percebe-se, pela linguagem utilizada por Person dentro de cada fragmento, que aquilo ali mostrado deve ter acontecido exatamente como está na tela. Já os devaneios aos quais o filme se permite estão no plano do presente. O cineasta inverte a idéia de que a realidade deve seguir o universo real: enquanto anda, Carlos fala sozinho, mas a esposa lhe responde em outro ambiente; suas elucubrações não parecem incomodar a ninguém, porque ele está, afinal, falando consigo mesmo. Quando a narrativa entra no interior das memórias, as cenas se assumem tais como aparecem na imagem. Espectador algum vai duvidar do que Person nos mostra via lembranças de Carlos.
Por sua vez, A Via Láctea segue caminho contrário. Heitor (Marco Ricca) discute com a namorada ao telefone e sai desembestado, no intuito de encontrar e se acertar com a moça (ou seja, ele possui um rumo) – e é atropelado logo ao colocar os pés fora de casa. É este acontecimento (revelado por Lina Chamie nos minutos finais, mas contados aqui para efeitos de análise) o desencadeador das memórias de Heitor. Só que, para expressar a agonia do personagem, Chamie mantém a narrativa no seu desespero, nos questionamentos feitos por ele enquanto está ao volante. As recordações vão se acumulando, mas desde logo fica claro que não podemos confiar nas imagens transmitidas aos nossos olhos: a música de um desenho animado toma a tela; cenas se repetem sob ângulos diferentes; uma sirene de ambulância ecoa a todo instante; em determinados momentos, um elemento mostrado anteriormente ressurge de repente; num único plano-seqüência, dois tempos distintos dividem o espaço.
Por mais que fique sempre claro estarmos assistindo aos pensamentos de Heitor, também não ficam dúvidas de que esses pensamentos, antes de serem simplesmente difusos, são ilógicos, não fazem sentido. Eles se aparentam mais a sensações ou desejos do que propriamente a acontecimentos concretos. Somente os planos em que aparece a sirene da ambulância, ou vemos o monitor de batimentos cardíacos, ou mesmo a garota largando o telefone e saindo correndo, poderiam ser considerados passíveis da nossa crença. De resto, nada no filme talvez seja verdadeiramente real – ou tudo o é, como saber? Em A Via Láctea, o devaneio de Heitor lhe dá a liberdade (e à realizadora) de remodelar a realidade ao seu redor e lhe permite achar, pensar e agir a um modo muito particular, mesmo que o próprio Heitor não tenha total consciência disso.
Porque este é o principal ponto que interessa nos dois filmes (ao menos agora, vistos conjuntamente): a consciência diegética e o jeito como cada cineasta articula seu filme para manter espectadores e personagens num mesmo nível de interação com as memórias exibidas na tela. Em São Paulo S.A, Carlos, mesmo mostrando-se amargo e no limite, sabe bem o que faz e com quem está. Já A Via Láctea traz um Heitor reavivando ou recriando à sua forma (e sem saber diferenciar muito bem a verdade da auto-referência) o passado e o presente – mas nunca o futuro, que ele não mais possui. Através dos recursos de linguagem e discurso cinematográfico, cada um dos trabalhos procura transmitir fluxos mentais.
É óbvio que existem diversos pontos de semelhança entre os filmes – a cidade de São Paulo como “peso” nas costas, o ambiente influindo drasticamente no caminho dos protagonistas, o amor como um dos grandes objetivos da vida, a solidão e amargura, mesmo num universo de milhões de pessoas. Mas o exercício de diálogo fica mais interessante quando buscamos olhar para além do óbvio e nos permitimos pensar que, mesmo tão próximos, estes filmes podem também estar bastante distantes no jeito como enxergam o tempo, a memória e o espaço.
*Visto na 1ª Mostra CineBH.
Filmes Citados:
São Paulo S.A (idem, 1965/ Luiz Sérgio Person)
A Via Láctea (idem, 2007/ Lina Chamie)








