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por Marcelo Miranda
Sombra, de Philippe Grandrieux

por Marcelo Miranda
As imagens iniciais e finais de Sombra são enigmáticas: num extremo, crianças olham para um show de fantoches e têm as mais variadas reações; na outra ponta, adultos posicionados numa rodovia olham diretamente para a câmera e não esboçam qualquer tipo de movimento ou expressão facial. No meio desses extremos, desenrola-se este primeiro filme de ficção do francês Philippe Grandrieux, após várias experiências no documentário. É importante pensar na cronologia de seu processo de trabalho, porque Sombra é um filme que mergulha profundamente numa noção plena de ficção como moldadora do mundo.
A começar pela óbvia vinculação de Sombra ao cinema de gênero: trata-se, essencialmente, de um suspense de serial killer – só que um suspense muito particular na fabulação do cineasta. Um filme sobre assassinatos tem, basicamente, duas formas de se apresentar: ou por cenas explícitas de morte ou pela insinuação do horror. No caso de Sombra, Grandrieux opta nem por uma coisa nem pela outra, mas por um caminho do meio: ele nega a todo instante a imagem da morte, ainda que ela esteja lá, ocupando todo o espaço da tela. A câmera inquieta se aproxima o máximo possível dos corpos em contato de violência; sussurros e gemidos podem ser ouvidos; e o silêncio adverte o fim da agonia. O espectador tenta enxergar alguma coisa, mas o jogo de claro-escuro impede a definição do que está sendo (des)enquadrado. A mixagem sonora, portanto, ganha importância salutar na medida em que é pelo ouvido que poderemos compreender a cena. Trata-se de imagens auditivas.
Toda a concepção de Sombra vai se basear nesse tipo de paradoxo: a imagem que se nega ser imagem, o som que define a visão, a abstração das formas que representa a inquietude mental e física do protagonista. Em determinados momentos, a tela se transfigura num borrão, e a sensação é a de um míope tentando enxergar sem óculos. Em outros instantes, o lúgubre parece servir de lençol negro colocado por cima da tela, deixando apenas o vislumbre de vultos caminhando lá dentro. Numa das passagens mais fortes do filme, o assassino dirige em alta velocidade, e o que nos parecia a estrada sendo percorrida rapidamente vai se “perdendo” num emaranhado de cores, linhas, borrões, tudo sem qualquer tipo de ordenação. David Lynch encontra Éder Santos.
Por mais que haja o caos nessa recusa de Grandrieux em mostrar o que se passa na tela, o cineasta demonstra ter controle absoluto de cada escolha visual e sonora. A direção é de grande rigor, algo explicitado pela concepção das cenas como pontes à perturbação de quem as assiste, seja através da própria violência, seja pela colocação dos atores no quadro (como o assassino de costas para o mar, sendo “carregado” pelas ondas até sua próxima vítima). Delineia-se, no filme, uma história de amor, sem que jamais Grandrieux se permita esquecer o fato de estar lidando com uma trama sobre crime e obsessão. Generoso nas cenas de nudez, ele sabe atingir níveis altos de incômodo ao tornar o idílio de corpos entrelaçados para o sexo num pesadelo sem qualquer ranço de espetacularização via imagem, mas sempre bárbaro pelos significados do que não exibe – ou exibe em fragmentos.
Aliás, palavra boa, esta: Sombra é um filme de fragmentos, só que as partes, em vez de espalhadas, estão todas num mesmo espaço dentro da tela, sendo mostradas a nós, aqui do lado de fora, apenas em pedaços aleatórios. Talvez o contraponto do olhar infantil expressivo versus o olhar adulto inexpressivo, que marcam começo e fim de Sombra, seja isso: testemunhos do fragmento de um mesmo universo fictício que, colocado em perspectiva, tenta dar a noção do choque daquilo que, de fato, não está nem num canto nem no outro.
*Visto no Indie 2009.
Filme Citado:
Sombra (Sombre, 1998 / Philippe Grandrieux)








