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por Marcelo Miranda
Todo Mundo tem Problemas Sexuais: normal é Domingos Oliveira
Um filme como Todo Mundo tem Problemas Sexuais, com sua aparente imperfeição, parece ser a única resposta possível a um trabalho como Os Normais 2. De um lado, o desleixo de Domingos Oliveira; do outro, a limpeza do padrão Globo de qualidade. Num, a falta de boa encenação por opção estética e política; no outro, a falta de boa encenação por tentativa de se criar um produto vendável, identificável e de fácil e rasteira deglutição. Certamente Todo Mundo tem Problemas Sexuais não faria um terço do público de Os Normais 2 – talvez até menos. Mas o filme de Domingos vai permanecer muito mais, seja como subproduto de uma pseudo-indústria de cinema no Brasil, seja como puro contraponto ao que se acostumou a ser considerado um modo viável de realizar produtos para essa pseudo-indústria.
Nada na base do filme de Domingos Oliveira é bonito. Os enquadramentos são os piores possíveis, o plano nunca é o “adequado”, o visual é de filmagem caseira, as cenas tropeçam umas nas outros. Por que, então, há prazer em se assistir a Todo Mundo tem Problemas Sexuais? Uma razão plausível – mas não a única, provavelmente nem a melhor – é o fato de Domingos desmontar o próprio espetáculo. Temos, em cena, a típica comédia de costumes, que narra diversos episódios na vida de uma gama de personagens e cujo fio central está no título: os desencontros advindos das potencialidades do sexo.
O diretor, com um bom texto em mãos (de sua autoria, originalmente feito para o teatro), descasca não o procedimento de se fazer uma comédia, mas a própria natureza do gênero. O exagero dos diálogos, o tom excessivo do elenco, a despreocupação em criar imagens bonitas, tudo é justaposto à intercalação daquele mesmo texto e daqueles mesmos atores em palcos de teatro, com diferentes figurinos, em épocas também distintas – mas sempre na mesma toada. Tem-se, assim, a negação do espetáculo através da existência do espetáculo em si. Revela-se a artificialidade do meio assumindo ser ele, por origem e definição, uma criação artificial. O riso, quando vem – e nem sempre as piadas e situações são tão engraçadas como podem parecer à primeira vista –, se deve menos à tentativa de fazer rir (a essência de uma comédia) do que simplesmente a disposição tão natural de todos esses elementos em espaços e tempos tão distantes entre si.
Até um palavrão parece muito mais autêntico na falsidade assumida de Todo Mundo tem Problemas Sexuais do que na tentativa burlesca de Os Normais 2. Quando Pedro Cardoso – logo ele, criador de um factóide conservador que tentou fazer da nudez cinematográfica o pior dos crimes na Terra – berra em todos os cantos “Ela vai entrar na piroca!”, o humor brota do extravasamento do palavreado. Ao fazer o personagem gritar “piroca” tantas e tantas vezes, da forma como o faz e do jeito que isso é colocado em cena, tanto Domingos Oliveira quanto Pedro Cardoso recompõem o termo chulo ao que ele realmente é: um termo chulo. Já Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães, ao discutirem dentro de um carro, em Os Normais 2, se devem ou não encarar o sexo a três, aparecem na tela como figuras construídas para parecerem ousadas. A câmera entra pelo vidro traseiro, “invade” a conversa íntima do casal e faz daquele espaço um núcleo “envasado”, hermeticamente fechado, um vidro de condimentos, no qual tudo ali exposto – a câmera rocambolesca, os atores carismáticos, os diálogos espertinhos que se atropelam quase matematicamente – tenta se somar para dar conta de alguma subversão oral e comportamental. Como isso não acontece (quem realmente acha provocadora uma cena dessas?), tem-se a trapaça, no pior dos sentidos.
É curioso imaginar que um filme tão farsesco e “mentiroso” como o de Domingos possa ser mais verdadeiro do que as brincadeiras de baixo calão da turma de Os Normais 2 (nomear-lhe o diretor, José Alvarenga, não diz muita coisa, porque estamos falando de um exemplar de linha de montagem audiovisual). Neste, vale empurrar idosas, invadir festas, esmurrar a dona da casa, roubar, chutar, fugir. Politicamente incorreto? Não. É só escroto, disfarçado de piada.
No caso de Todo Mundo tem Problemas Sexuais, as situações se resumem à intimidade, e nela ficam. Há, por exemplo, num determinado momento, a tentativa e concretização de sexo grupal, o que aproxima Domingos de Os Normais 2. A diferença está na abordagem: o cineasta acredita no tom paródico dos personagens e insere aquelas pessoas em situações carregadas de pequenas tensões. Em uns poucos minutos, conhecemos o jeito de cada um, sua forma de lidar com as relações com o próximo, a visão que se tem do outro. Consequentemente, nos surpreendemos com determinadas decisões ou rumos que o filme apresenta, porque, como na vida, nada é tão absoluto que não possa dar uma guinada radical.
É esse tipo de vivacidade, de carinho, de gozo, de prazer, que emana das imagens feias de Domingos Oliveira. Não é sua primeira incursão num cinema artesanal de baixíssima qualidade estética. Já há alguns filmes ele tem “desenvolvido” essa característica, tendo os ápices em Carreiras, Juventude e neste Todo Mundo tem Problemas Sexuais. Como bem escreveu Rafael Ciccarini, editor deste site, ao falar de Juventude: “O cinema de Domingos é o cinema não sacralizado, que não toma para si estatuto de arte suprema, que não se quer inscrito em panteões sagrados da pomposa ideia de ‘sétima arte’. Esse seu despudor vai ao que lhe parece ser o principal: filmar algo que por algum motivo lhe parece fundamental ser filmado. E esse ‘algo’ é o que lhe interessa – e o que nos interessa também”.
O ponto é exatamente esse: enquanto a escala industrial tenta empurrar no público (e, muitas vezes, consegue) o humor e a sedução de mundos falsamente construídos para aparentarem algum tipo de verdade – os palavrões de Os Normais, as angústias da mulher casada em Divã, os paroxismos da paixão em A Mulher Invisível, os dilemas burgueses de Se Eu Fosse Você –, o cinema de Domingos Oliveira tenta atingir, a quem se dispõe a assisti-lo, um outro tipo de mundo. Um mundo também falso na construção, mas capaz de transformar a feiura de sua representação na beleza encantadora da mera possibilidade de se estar nesse mesmo mundo, vivendo e absorvendo o que existe ao redor.
Filmes Citados:
Todo Mundo tem Problemas Sexuais (idem, Domingos Oliveira / 2009)
Os Normais 2 (idem, José Alvarenga Jr / 2009)
Divã (idem, José Alvarenga / 2009)
Se Eu Fosse Você (idem, Daniel Filho / 2006-2009)
A Mulher Invisível (idem, Cláudio Torres / 2009)
Carreiras (idem, Domingos Oliveira / 2006)
Juventude (idem, Domingos Oliveira / 2008)








