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por Marcelo Miranda
Atividade Paranormal: cinco apontamentos
Cinco apontamentos sobre (e a partir de) Atividade Paranormal, filme de terror dirigido por Oren Peli:
1.
O medo pode existir de formas variadas. Mesmo na sua ausência, é possível sua presença. Basta que exista a consciência do medo, a sensação de algo fora do comum, a quebra de uma rotina em direção a alguma coisa que não se pode explicar racionalmente. Em determinadas situações, o medo não vem, mas ele pode ser sentido como algo inerente à situação; sua existência depende menos dele tomar o corpo do que tomar a mente; a intensidade do medo será sempre proporcional ao quanto nos deixamos ser levados por ele e até quando teremos a crença de que ele vai ganhando espaço. O medo não precisa se manifestar fisicamente para existir: saber sobre ele é suficiente.
2.
Atividade Paranormal é um filme sobre a consciência do medo. Pode-se não temer o que Oren Peli nos oferece através de imagens e sons. Sabe-se, porém, e a todo instante, que há algo de amedrontador naquilo que vemos (ou não vemos). O plano fundamental do filme – aquele em que a câmera enquadra o quarto do casal, tendo a cama à direita do quadro e, à esquerda, a porta aberta para o restante da casa, espaço misterioso de onde parecem surgir as maiores ameaças. Quando este enquadramento se impõe na tela, instala-se a presença do medo. Há quem se arrepie de olhar para a imagem; há quem sinta indiferença. A relação entre um extremo e outro está na crença de que existe algo a temer, seja por mim (espectador), seja por eles (personagens no filme). Se essas duas pontas se juntam, temos um efeito avassalador de amedrontamento.
É desnecessário o envolvimento do público com o casal. Nas primeiras cenas, tomamos conhecimento da situação básica (coisas estranhas acontecem naquela casa) e passamos a enxergar pelas lentes de uma câmera. Não se pode falar em câmera subjetiva: é uma câmera-objeto, cuja consciência de sua presença enquanto equipamento físico será condição ontológica para o filme existir e provocar quaisquer sentimentos e impactos. A câmera será a verdadeira protagonista; é com ela que deveremos nos relacionar.
3.
Outros filmes usaram a câmera objeto-consciente das mais variadas formas e com distintos resultados. Para ficarmos apenas em títulos recentes, há Cloverfield, [REC] e Diário dos Mortos. Em todos eles, existe a noção de que, sem a câmera como elemento da diegese, não existiria filme. Daí a insistência dos personagens na recusa de desligar os equipamentos, mesmo nas situações mais radicais e trágicas. Não há monstro gigante ou zumbi que forcem os empunhadores da câmera a largá-la. As imagens quase sempre são tremidas, agitadas, urgentes, perseguidas por algo que ora não se vê, ora se enxerga meio na penumbra ou de relance. São imagens em disparada, pelas quais ganhamos conhecimento do que acontece, mas não nos é dado tempo de sentir (mas apenas de perceber) o ambiente ou o perigo que se aproxima. A necessidade de sobrevivência exige velocidade, novamente sob risco da câmera ser destruída e o filme deixar de existir.
Atividade Paranormal subverte essa condição. Só será possível entender o que acontece na casa se a imagem estiver parada, captando cada detalhe das horas noturnas. O rapaz posiciona a câmera no quarto e a deixa ligada, na esperança de captar alguma coisa que lhe chame atenção ou explique o mistério em torno dos temores da namorada. É da imobilidade dessa imagem que advém a força do filme. Quanto mais tempo nos é proporcionada a chance de assistir ao que acontece (ou não acontece) no quarto – e em algumas ocasiões a imagem é acelerada –, mais instala-se o medo, ou a consciência de que esse medo é um crescendo.
O filme tem nas cenas mais movimentadas seus instantes de transição, de convivência entre as pessoas, de absorção da situação, de contextualização da noção de que está a se filmar a possível resposta ao conflito instalado desde o começo. São momentos de interação câmera-personagens-espectadores; é a maneira dessa trinca criar relações entre si e preparar o espaço para as próximas horas de imagem parada. O que importa de ser movido, de fato, são os objetos da cena montada diante da câmera: portas, lençóis, corpos levantados ou arrastados. A imagem precisa estar congelada para que seu interior tenha movimento e provoque o medo. É um procedimento voyeur, bastante aproximado do que faz o criminoso de Tortura do Medo, filme emblemático sobre a questão da imagem imóvel como artífice do pavor mais primitivo. Por algum tempo, nós assumimos a casca desse voyeur, ainda que não sejamos os perpetradores daquilo ao que assistimos.
4.
Um outro elemento de subversão do uso da câmera como protagonista em Atividade Paranormal é sua problematização. Em nenhum dos trabalhos semelhantes citados anteriormente esse objeto fora tão inconveniente como o é no filme de Oren Peli. A certa altura, a garota diz ao namorado: “Estou achando que a presença dessa câmera está fazendo as coisas piorarem aqui dentro”. Por diversas outras vezes ela vai pedir (implorar) que ele abandone o equipamento e desista de tentar registrar os fenômenos. Teimoso, o rapaz não apenas insiste, como faz provocações à “coisa” usando justamente as potencialidades da câmera. A imagem registrada, portanto, deixa de servir somente à busca pelo conhecimento de uma verdade para se tornar, ela mesma, o motivo deflagrador das possibilidades dessa verdade.
Caímos num paradoxo: se o personagem acatar os pedidos da namorada e abandonar a câmera, o filme deixa de existir tal qual o vemos. O conflito, então, estaria resolvido? Impossível saber, porque o registro teria sido abandonado. Logo, aquilo que aparentemente desenvolve o conflito é o mesmo que nos permite ver este conflito. O que faz Atividade Paranormal existir como obra de cinema – quer seja, suas imagens mal definidas gravadas digitalmente – é o catalisador da sensação de medo e impotência. A câmera não serve para narrar ou mostrar uma situação; ela é, fisicamente, a própria situação narrada.
5.
Uma vez que devemos à câmera a consciência do que assistimos, chega-se ao já polêmico desfecho de Atividade Paranormal. Como está nos cinemas, vemos a garota tomada explicitamente por um demônio, que arremessa o namorado em cima do equipamento de filmagem e, logo em seguida, destrói esse mesmo equipamento. Segundos antes de fazê-lo, o demônio sorri sarcasticamente, olhando diretamente para a lente. É o triunfo do mal, a possível constatação de que a câmera era, de fato, um elemento incômodo à “coisa”. Temos, portanto, a eliminação do objeto-problema e, consequentemente, a impossibilidade do filme continuar.
No final original de Atividade Paranormal – filmado por Oren Peli antes dele receber de Steven Spielberg a proposta (artística e financeira) de refazê-lo para lançar o filme nos cinemas –, não há demônio à vista de todos nem sorrisinho irônico. Tem-se um maior tempo de espera, com a garota em transe, sentada no chão do quarto. As horas passam; seguimos vendo as imagens, porque a câmera lá continua a postos. Enfim, chega a polícia. Um agente se aproxima do equipamento e o desliga. Esse policial não faz a menor ideia do que aquela câmera representa; ela não é, para ele, problema algum. O agente também desconhece que o ato de apertar o “off” nos tira a chance de saber se a “coisa” estava mesmo incomodada com a presença da câmera. É um desfecho de maior ambiguidade, porque esconde todas as respostas possíveis. No final em cartaz nos cinemas, o filme termina; no final original, como Peli o idealizou, o filme é interrompido.
O final original (AQUI)
Filmes Citados:
Atividade Paranormal (Paranormal Activity, 2009 / Oren Peli)
Diário dos Mortos (Diary of the Dead, 2007 / George A. Romero)
[REC] (idem, 2007 / Jaume Balagueró e Paco Plaza)
Cloverfield – Monstro (Cloverfield, 2008 / Matt Reeves)
Tortura do Medo (Peeping Tom, 1960 / Michael Powell)







