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por Nísio Teixeira
Especial Quebec – Parte 9 – anos 1970 e o desbunde
Com esta parte 9 estabelecemos o penúltimo panorama de nossa saga sobre o cinema quebequense, que até aqui tem unido impressões de filmes diversos sob forma cronológica. E, pra fechar este ciclo, trazemos alguns títulos importantes dos anos 1970: libertário e libertino, o momento histórico do Quebec mais uma vez se mostra em filmes que chocam as convenções sociais da época, como Valérie, de Denis Héroux; Deux femmes em Or, de Claude Fournier; IXE-13, de Jacques Godbut com o grupo Les Ciniques e La Vraie Nature de Bernadette, de Gilles Carle.
Valérie
O filme, que escandalizou a opinião pública quebequense no final dos anos 1960, começa com um plano médio de uma jovem nua diante do espelho. Valerie está em um internato e é repreendida pela enésima vez pela freira da instituição, que vai orar por ela. Valerie, que fumava escondida, sai com ar de deboche e auréola de santa para se juntar às meninas no pátio, quando um motoqueiro entra pela escola, atravessa corredores até a quadra, quando Valerie simplesmente pula na garupa, dá adeus e sai em easy rider.
On the road, ela tampa e destampa rapidamente, com as mãos, os olhos do motoqueiro. Jogada interessante para os créditos do filme que surgem precisamente no intervalo em que os olhos do easy rider são fechados com as palmas de Valerie. Até que, quando surge o nome do diretor ouve-se um barulho, derrapagem e batida. A imagem apresentada em seguida é a do plano geral de um cemitério. Mas é só outra piada interessante: eles não morreram. Em travelling, a câmera mostra os dois personagens que bateram na cerca do lugar.
Adiante páram à beira de um rio. Valerie se desfaz de suas roupas colegiais, nada no rio e veste jeans com blusa branca. Sob trilha psicodélica chegam outros motoqueiros, mas que parecem mais interessados em brincar com os motores do que com as meninas. É o suficiente para Valerie trocar de namorado em uma festa. Acorda com um outro cara e decide, após ler o jornal, tentar emprego como dançarina nua, sendo aprovada pelo dono da boate (representado pelo ator Yvon Ducharme, filho de Camile Ducharme, a cara do pai…).
Uma vez na função gogo girl, divide apartamento com uma amiga lésbica que não esconde o interesse pela colega de quarto. Ambas possuem ainda outra amiga, prostituta. A lésbica e a prostituta assumem publicamente sua posição em um programa de rádio. Por fim, Valerie resolve se enveredar pela prostituição ao mesmo tempo em que conhece um artista, François, e seu filho no parque, que desconhecem sua profissão. Valerie cresce e aumenta sua condição de vida, mas, após traumática experiência, resolve se reconciliar com François. O tempo todo no filme também haverá um flerte crítico com a arte e a decoração modernas, desde uma blague com a estrutura de escultura do parque onde se encontram, até no meio em que os personagens circulam.
Um dos grandes sucessos de bilheteria do Quebec, Valerie foi o próprio desbunde da nova geração quebequense: uma colegial rebelde, motoqueira hippie, dançarina, prostituta e mãe. Tudo num só filme, rodado entre setembro e outubro de 1968 em Montreal e que tinha como título inicial outro nome: Nicole.
Em que pese o tom libertino da personagem central e da película, o desfecho é conservador. Da mesma forma que outras libertinas do cinema, de Holly Golightly em Bonequinha de Luxo a Audrey Hankel em Totalmente Selvagem, no fundo, por trás da suposta imagem de devassidão, existe uma boa moça de família, romântica e sonhadora com o par perfeito.
De qualquer maneira, é curioso perceber, mais uma vez, a trajetória do cinema como termômetro de uma sociedade: apenas 17 anos separam La petit Aurore l´enfant martyre de Valerie. Foi preciso mesmo o espaço de uma maioridade para sair de um filme que representa a catarse de uma repressão para outro que representa a catarse de uma liberação, ambos trazendo personagens centrais femininos, evidentes no próprio título. Em Aurore, estrutura conservadora se traveste em denúncia progressista – exatamente o contrário de Valerie, em que uma estrutura progressista culmina em desfecho conservador.
Deux femmes en or
Pornochanchada à quebequense, este filme fala das vizinhas Fernande Turcot e Violette L´Amoureux e seus respectivos maridos, Yvon e Vincent. Insatisfeitas, as donas de casa começam a se mostrar, a se insinuar e, por fim, a se entregar para funcionários de companhias elétricas, de limpeza; leiteiros, afinadores de piano, enfim, todo o tipo de serviço terceirizado que podem ter acesso no sagrado espaço do lar. A única exceção é feita ao funcionário da Bell Canada, que não faz nada e ao cuidador de passarinhos (referência ao filme Homme Des Oiseaux?) que morre feliz com a primeira grande noite de sexo… Por isso ambas são acusadas, mas, absolvidas, viram celebridade e recebem proposta para transformar a história em sucesso na Broadway. Em meio a isso, denúncias contra a mutilação sexual em países africanos e referências à pílula anticoncepcional
Destaca-se ainda o caráter de “banana” do marido Yvon, que além de ser traído pelo próprio amigo, Vincent, é também o responsável pela imagem de uma companhia anglófona no Canadá Francês, a Canada-Life. Por sugerir que no Quebec ela se chame simplesmente Canada-Vie ganha, em Toronto, como forma de reconhecimento ao trabalho, um prêmio fabuloso: um quadro da rainha da Inglaterra e um comentário do chefe “estamos preocupados com a situação do Quebec”, em alusão aos acontecimentos de outubro de 1970 (abordados na coluna passada). O mesmo chefe que irá, depois, demiti-lo por causa da imagem negativa gerada pelos “crimes” cometidos por sua mulher.
Outro detalhe no filme é a presença explícita de palavrões quebequenses, em especial o mais famoso deles, Tabarnak, um equivalente ao nosso Puta-que-pariu!. Tabarnak (Tabernáculo), uma derivação de Colisse de saint-ciboire de tabarnak d'esti de sacrament d'agrat!, algo como Cálice-da-hóstia-do-sacramento-do-tabernáculo. Sim, os palavrões no Quebec se referem às coisas da Igreja. Mais uma vez, algo explicável pela forte presença católica na trajetória da província.
Desprezado pela mulher, a imagem da rainha traz uma animação nos olhos quando mais uma safadeza acontece na casa de Fernande e Yvon. Outra seqüência hilariante é produzida em fotografias, quando Fernande se entrega ao limpador de tapetes em meio a bolhas de sabão que inundam a sala. Ao final do filme, após o reconhecimento internacional, e como a coroar todo o cinismo do filme, Vincent e Violette recebem o prêmio casa do ano, com a presença de várias pessoas - inclusive a do limpador de tapete que, durante um brinde, vê um convidado derrubar a bebida no carpete e diz para não se preocupar: num sorriso a Violette explica que limpar tapete, afinal, é a sua especialidade.
IXE-13
Sátira aos filmes de James Bond, IXE-13 é o espião canadense-francês: playboy, mas fiel. Mais uma vez, a Igreja é o alvo da primeira piada do filme: as recomendações do padre para a boa e a má leitura. A boa leitura é precisamente a leitura dos livros que contam a história de IXE-13. Os personagens são apresentados sob forma de hóstia e todos eles pertencem a um importante grupo de teatro cômico do Quebec, o Les Ciniques – espécie de versão franco-canadense para o humor irreverente a Monty Python.
A história se passa em 1949, com a chefe dos comunistas chineses querendo pensar um plano para matar IXE-13. Eles matam o agente Bob West para colocar IXE-13 em ação e, assim, pegar também o agente. Mas IXE-13 não está sozinho: ele conta com um fiel amigo, o francês Maurice la mouche e noiva Roxanne, que, na ocasião, está em missão na Sibéria, mas acaba por ser seqüestrada pelos vilões, que reforçam o empenho em acabar com IXE-13.
Entre as armas secretas de IXE-13 está um terço, que o agente usa como uma espécie de feng shui para monitorar um ambiente apinhado de suspeitos, um charuto que esconde uma pequena chave. Entre momentos hilariantes do agente estão aqueles em que encontra uma dançarina, uma ex-comunista, que agora ganha a vida honestamente como dançarina. Ela faz um strip-tease e joga a calcinha para IXE-13: na verdade, ali está a informação secreta que o levou àquele lugar. IXE-13 dorme com a camisa do time de hóquei de Montreal e com cueca estampada com a flor-de-lis símbolo da bandeira do Quebec.
Todo o filme é rodado em estúdio e há o uso tosco, maravilhoso e despreocupado de maquetes e de cenários para simular explosões de carros, viagens de avião, perseguições em trens. Ao invés do uso de figurantes em bares ou lutas de boxe, também se utilizam manequins e recortes de papelão em tamanho real. Além disso, o uso de onomatopéias visuais durante as brigas – como aquelas da série antiga de Batman – e números musicais adicionam o caráter de ópera-brega ao filme. Ou seja, uma combinação de esquetes elaboradas dentro do espaço teatral no qual os Ciniques se tornaram famosos. Contudo, ao contrário do Monty Python, IXE-13 foi a única incursão do grupo pelo cinema.
La Vraie Nature de Bernadette
A verdadeira natureza de Bernadette é a defesa do amor livre. Por isso se afasta do marido e da cidade grande e vai morar na fazenda – exatamente no momento em que começam a haver protestos junto ao governo. No campo, Bernadette não se faz de rogada: atende às necessidades amorosas – e sexuais – dos habitantes do entorno, o que inclui um deficiente físico, desprezado por todos - mas não por ela - e um trio de velhinhos até então bastante deprimidos na terceira idade. Paradoxalmente, ela começa a ser vista como uma santa que atende aos desejos destas pessoas tão carentes, que tornam-se mais animadas para as reformas necessárias - dentro e fora de casa. Como se não bastasse, além do amor livre, institui o vegetarianismo - o que obriga os velhinhos a comer carne às escondidas.
Até aqui vimos como o caráter libertário dos filmes dessa safra cinematográfica do Quebec radicalizam sua posição em relação ao opressivo passado religioso da província. Mas, talvez, a crítica tenha atingido o ponto mais alto com o forte e bom argumento deste filme de Carle, candidato à Palma de Ouro em Cannes (1972). Afinal, ele deixa inclusive o ambiente urbano, habitualmente tido como profano, e alcança a tão cara santidade, aos quebequenses, do clima campestre.
A postura de Bernadette, obviamente, vai gerar fortes inimigos, mas alguns deles vão emergir exatamente no seio da filosofia de “paz e amor” professada por ela que, gradativamente, de santa, começa a ser interpretada como vilã e pecadora. Aliás, um desfecho que lembra exercício curiosamente muito próximo à personagem Grace, de Dogville (também indicado à Palma de Ouro, quase trinta anos depois).
Filmes citados
La petit Aurore l´enfant martyre (idem, 1952/ dirigido por Jean-Yves Bigras)
Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany´s, 1961/Blake Edwards)
Valérie (idem, 1969/Denis Héroux)
Deux Femmes en Or (idem, 1970/Claude Fournier)
IXE-13 (idem, 1972/Jacques Godbout e Les Ciniques)
La Vraie Nature de Bernadette (idem, 1972/Gilles Carle)
Totalmente Selvagem (Something Wild, 1986/Jonathan Demme)
Dogville (idem, 2003/Lars von Trier)








