por Nísio Teixeira

Klatoo Barada Nikkto! - O Dia em que a Terra Parou (2008): último suspiro da Era Bush, desrespeito ao filme de Wise

Robert Wise viveu quase um século (10/9/1914 – 14/9/2005) e, desde os 21 anos, sua trajetória começa a se integrar ao cinema, quando, aos 27, já praticamente se imortaliza ao trabalhar ao lado, entre outros, de Orson Welles e Bernard Herrmann em Cidadão Kane, como montador do filme. Aí, como se não bastasse, seu nome é associado ainda à direção de dois dos musicais mais celebrados da história, Amor Sublime Amor e A Noviça Rebelde. E, entrementes, a histórias de horror e ficção científica, como a primeira versão de A Marca da Pantera (chamada A Maldição do Sangue da Pantera) e de O Dia em que a Terra Parou.

 

Pelos filmes que fez, Robert Wise foi um diretor que descobri nas madrugadas de televisão, que, há algumas décadas atrás, dedicava sua programação noturna a clássicos do cinema,  como os citados de Wise.  Foi numa dessas madrugadas que assisti pela primeira vez a O Dia em que a Terra Parou e creio ter sido esse o meu primeiro contato imediato com algum filme de Wise.  Mas também com a música de Bernard Herrmann e o sombrio zumbido do theremin (para mim, aliás, a música era de Miklós Rózsa, ferrenho adepto do instrumento e parceiro de Billy Wilder em vários filmes. O engano só foi dirimido ao rever o filme, creio que pela terceira ou quarta vez, para esse artigo).

 

Lembro que, além do theremin, fiquei impressionado, na primeira vez que vi o filme, com a idéia de que um extraterrestre chega à Terra e é gente boa em uma produção bem anterior a E.T. Até então, como alguém que gostava de ficção científica, os extraterrestres no cinema que chegavam até a Terra não eram tão legais assim.  Além do mais, a idéia de ter Bobby Benson (Billy Gray) uma criança, órfã de pai (morto durante a II Guerra), como personagem central à presença e acompanhamento do alienígena, foi outro brilhante acerto do filme – para a história e para a aproximação com o público infanto-juvenil.  Sem contar os efeitos especiais.

 

Tudo bem. O extraterrestre Klatoo (Michael Rennie) é legal, nos termos estadunidenses da coisa, uma vez que sua presença se dava pelo seguinte: os terráqueos deveriam encontrar um caminho para o diálogo e a paz, ou a idéia de uma guerra atômica não seria bem vista por nossos vizinhos espaciais, que, a contragosto, teriam que dizimar a Terra antes que o problema atômico se espalhasse pelo universo. Muito condizente com a velha estratégia da política militar externa dos EUA de combater o inimigo em sua própria casa antes que ele atinja a nossa. Como demonstração de força e de quem avisa amigo é, Klatoo pára por meia hora todos os serviços elétricos do mundo (exceções feitas a hospitais e aviões, por exemplo). O filme funciona, assim, como um interessante espelho político da própria Guerra Fria, devolvendo aos EUA e demais países um pouco de seu próprio feitiço.  O roteiro é de Edmund H. North para uma história de Harry Bates.

 

Apesar da calorosa recepção militar que o atingiu logo no primeiro encontro, Klatoo dribla a segurança e se envolve com cidadãos comuns para ter um ponto de vista diferente dos humanos que não o burocrático-militar. É quando conhece Bobby e sua mãe, Helen Benson (Patrícia Neal), ao alugar o quarto de uma pensão, que o jogo universal da presença de Klatoo passa a ser cantado pela aldeia da pousada e da família Benson, além do ciúme do pretendente de Helen, Tom Stevens (Hugh Marlowe).  O roteiro de North não se perde em momento algum na entrada desse universo familiar, reforçado pela boa atuação do elenco,  anos-luz distante de qualquer associação ou referência de celebridade – todos eram desconhecidos do grande público, o que reforça o caráter de legitimidade e delicadeza do retrato de uma família como qualquer outra.

 

Outra boa surpresa é a figura do professor, também longe da idéia do cientista-maluco – deferência que Wise vai manter em outro bom filme, Enigma de Andrômeda, invertendo o jogo: se em O Dia... a ciência funciona como um ponto secundário à chegada alienígena, em Enigma.., a chegada alienígena será o ponto secundário para a discussão científica, que passa a ocupar papel central. Em ambos, porém, coloca-se na berlinda a relação entre ciência e poder.  Relação celebrada, em O Dia..., na figura de Gort, que, como robô gigante não pensante, funciona como alerta para a destruição total da Terra – interrompida pela célebre frase dita por Helen: “Klatoo Barada Nikto”.

 

Bom, tudo isso para dizer que a versão de Scott Derrickson lançada este ano está entre os piores remakes que vi. Tudo bem que o remake sempre pode ser uma luta inglória, pois a comparação é dada de antemão. Mas, mesmo no caso de Wise, há que se referir ao bom remake de Schrader para A Maldição do Sangue da Pantera.  O caso de Derrickson e do roteirista David Scarpa, contudo, não é bem assim.

 

Os principais elementos do anterior foram limados. Não há theremin, não há Herrmann. O garoto, interpretado por Jaden Smith, é hostil ao alienígena, e não simpático, como no filme anterior. É como se o personagem de Jaden incorporasse a ele também o papel do ciumento Tom do longa de Wise. A presença olimpiana de Jaden, Jennifer Connelly como Helen e Keanu Reeves como Klatoo já rompe o elo de situação ordinária familiar oferecida pelo filme anterior. Mas nem precisava, porque o interesse aqui é o tradicional apelo à peripécia da ação e dos efeitos especiais constantes. Os poucos momentos em que o filme pára para respirar se rendem ao clichê melodramático, como na cena em que Klatoo encontra um de seus pares... no Mc Donald’s (!). Ou na visita ao túmulo do pai do pequeno Benson, de novo, um herói de guerra.  Uma frase, pelo menos, salva-se no processo, quando Klatoo pergunta à secretária de Defesa dos EUA, interpretada por Kathy Bates, se ela representa toda a raça humana. É só. Como se não bastasse, a atuação do elenco é pouco convincente e sem carisma, o que fica patente na interpretação insossa de Reeves, com excessivo atributo de racionalidade robótica ao personagem (podemos pensar que se trata de um problema de direção, mas, considerando-se os outros filmes, especialmente de sci-fi, interpretados por Reeves, parece ser inerente à sua própria atuação).

 

Klatoo Barada Nikto”, frase que praticamente fechava a versão anterior, abre a de 2008.  Com um detalhe:  Gort dessa vez não precisa de ordem, nem para começar a destruir, nem para parar – outro detalhe atroz do roteiro de Scarpa.  Ou seja, trata-se novamente apenas de um pretexto para efeitos mirabolantes na tela, mas, de novo, talvez, como metáfora especular para a própria política externa dos EUA. Espécie de último suspiro da era Bush, o desrespeito da versão de Derrickson para o empolgante filme de Wise acaba mesmo funcionando um pouco como a imagem do governo Bush: não ter controle sobre as máquinas de guerra geradas e espalhadas mundo afora.

 

Filmes Citados:

Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941/ Orson Welles)

A Maldição do Sangue da Pantera (The Curse of Cat People, 1944/ Robert Wise)

O Dia em que a Terra Parou (The Day  that the Earth Stood Still , 1951/ Robert Wise)

Amor Sublime Amor (West Side Story, 1961/ Robert Wise e Jerome Robbins)

A Noviça Rebelde (The Sound of Music, 1965/ Robert Wise)

O Enigma de Andrômeda (The Andromeda Strain, 1971/ Robert Wise)

E.T., o Extraterrestre (E.T., the Extraterrestrial, 1982/ Steven Spielberg)

A Marca da Pantera (Cat People, 1982/Paul Schrader)

O Dia em que a Terra Parou  (The day  that the Earth stood still , 2008/ dirigido por Scott Derrickson)