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por Nísio Teixeira
Parênteses anglófono no cinema do Quebec – I: David Cronenberg e seu primeiro longa, Calafrios (1975)
Ao contrário do célebre bordão, para David Cronenberg tudo o que importa não é a beleza, mas o horror interior: psicológico e físico; se é que, em Cronenberg, podemos separar os dois. A filmografia do diretor sempre se notabilizou por explorar o horror psicológico e, mais que isso, como gradativamente esse horror se explicita à flor da pele, passando de uma dimensão implícita e psicológica para outra mais explícita e orgânica. Essa transição, muitas vezes, traz como agente a ciência e a tecnologia, as quais - não por acaso – são, nos filmes de Cronenberg, resultados de medos, angústias e aflições dos personagens.
Em sua filmografia, muitas vezes as obras alternam uma linha predominantemente mais implícita e psicológica, como A Hora da zona morta e Gêmeos: mórbida semelhança, com outras onde o orgânico será o elemento predominante, como Scanners – sua mente pode destruir e A Mosca. Em ambas, inclue-se também, em maior ou menor grau, a verve sexual. Essa obsessão de Cronenberg, nascido em Toronto (na vizinha província do Quebec, Ontário), tem uma provável origem em seu interesse pela literatura de Vladimir Nabokov, William Burroughs e Henry Miller, aliado ao curso que não concluiu em biologia e bioquímica na Universidade de sua cidade natal.
Daí a oportunidade oferecida pela programação da Cinemateca Francesa de assistir a Calafrios, um dos primeiros longas-metragens dirigidos por Cronenberg e, no caso do filme, o primeiro longa produzido pela Cinépix em Montreal, no Quebec. [Cronenberg faria pelo menos outros dois filmes na cidade: Enraivecida pela fúria do sexo (1976), além do próprio Scanners (1980), o qual vai se tornar o seu hit mundial e carro-chefe para o início da carreira fora do Canadá]. E é com Calafrios, produção de Ivan Reitman (diretor e produtor de Caça-Fantasmas e ainda todas as comédias que têm Schwarzenegger como protagonista, como Júnior ou Irmãos Gêmeos) que abrimos um rápido parênteses anglófono em nossa filmografia ficcional quebequense – de certa forma, já havíamos feito esse parênteses quando comentamos o longa Butler Night Off, de Roger Racine (noir que traz uma ponta do ator William Shatner em sua estréia no cinema) em nosso Especial Quebec parte 3.
Em Calafrios (Frissons, na versão francófona e Shivers, na versão anglófona, já que é comum, no Quebec, as produções serem apresentadas em ambos os idiomas oficiais do país) tem-se praticamente todos esses elementos caros à filmografia do diretor. Um estranho clima de tara sexual perpassa, gradativamente, um refinado condomínio em Montreal (em Ile-des-Soeurs). O início do filme, que alterna a boa idéia de apresentar, com uma voz em off, o condomínio como um slide institucional de um local perfeito para os novos ricos quebequenses, começa com um casal que resolve comprar um apartamento no lugar. Esse clima de peça semipublicitária é bruscamente rompido por uma cena na qual, em outro aposento do idílico condomínio, um velho ataca brutalmente uma adolescente. Sangue e claustrofobia, outros dois itens caros ao diretor, explicitam-se em forte violência na tela – e serão onipresentes a partir daí, com o avanço gradativo dos estranhos seres hipersexuados que contaminam os outros – há seqüências onde fica notória também a influência e a paixão de Cronenberg pelo horror underground, especialmente Roger Corman, Mario Bava e George Romero, além de Vampiros de Almas (não é por acaso que Bárbara Steele, musa de Bava e Corman, está no filme no papel de uma lesbian chic). Por outro lado, seus elementos de ficção científica e horror, em especial um ser e algumas seqüências, influenciam claramente a célebre incursão de Ridley Scott nesta interseção de gêneros com a primeira aparição de Alien.
Mas o filme de Cronenberg retoma a referência à ciência como algo resultante de medo e angústia que, por isso mesmo, incorre no risco de gerar novos medos e angústias – apesar de ter um objetivo claramente oposto a esse fim. Esse movimento centrífugo de Cronenberg do horror psicológico ao orgânico e, no caso de Calafrios, ao deleite e à libertinagem sexual, pode sugerir ainda, sem dúvida alguma, uma crítica à repressão sexual de uma nova sociedade industrial. Afinal, a idéia do personagem cientista de Calafrios foi a de criar uma forma do homem diminuir sua razão e dar mais vazão à libido, aos seus instintos.
De alguma maneira, é possível estabelecer alguma conexão entre Calafrios e as primeiras ficções de Denys Arcand: em ambas há, sutilmente, no caso de Cronenberg e explicitamente, no caso de Arcand, uma crítica ao comodismo de uma sociedade que tornou-se rica, consumista e entediada muito rapidamente. Mas o filme de Cronenberg tem um apelo especialmente mais internacional, quando uma série de carros sai do estacionamento do alto edifício, fotografado de maneira que fica evidente a idéia fálica do prédio e de seus girinos automotivos prontos a semear o mundo. Nada mais condizente num filme que é o embrião de certas obsessões do próprio cineasta – que, mais recentemente, em especial nos filmes que flertam com o gangsterismo produzidos com o ator Viggo Mortensen, tem colocado essa temática em segundo plano e procura evidenciar o problema da identidade e das falsas aparências (embora poderíamos dizer que isso também está, de certa forma, presente desde Frisson).
Filmes Citados:
Butler´s Night off (idem, 1950/Roger Racine)
Vampiros de almas (Invasion of the Body Snatchers, 1956/dirigido por Don Siegel)
Calafrios (Frissons/ Shivers/ 1975) *
Enraivecida na fúria do sexo (Rabid , 1976) *
Alien – o 8º passageiro (Alien, 1980/dirigido por Ridley Scott)
Scanners – Sua mente pode destruir (Scaners, 1980) *
A hora da zona morta (Dead Zone, 1983) *
Os Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 1984/Ivan Reitman)
A mosca (The Fly, 1986) *
Gêmeos: Mórbida semelhança (Dead ringers, 1988)*
Irmãos Gêmeos (Twins, 1988/Ivan Reitman)
Júnior (Junior, 1994/Ivan Reitman)
* Filmes dirigidos por David Cronenberg








