por Nísio Teixeira

O Rei do samba: o bloco do Sette pede passagem

Aproveitei a oportunidade oferecida pelo Festival de Inverno de Ouro Preto e, no dia 17 de julho de 2009, às 17 horas, durante a mostra “Cinema de Resistência no Brasil ontem e hoje”, que exibiu o filme O rei do samba, de José Sette, no Cine Vila Rica, sobre a vida do cantor e compositor Geraldo Pereira (1918-1955).

 

Geraldo Pereira é daqueles que a gente mais já ouviu cantar do que ouviu falar. Basta cantarolar alguns dos sambas que emplacou na história da MPB nas vozes de Moreira da Silva, Ciro Monteiro, Marlene, Déo, João Gilberto, Gal Costa, Chico Buarque, pra gente se lembrar. Dentre vários estão o Acertei no milhar (Acertei no milhar/Ganhei 500 contos/Não vou mais trabalhar/Você dê toda a roupa velha aos pobres/e a mobília podemos quebrar); Falsa baiana (Baiana que entra no samba e só fica parada/Não samba, não dança, não bole nem nada/Não sabe deixar a mocidade louca/ Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira/Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras/ Deixando a moçada com água na boca) ou ainda Sem Compromisso (Você só dança com ele/E diz que é sem compromisso/É bom acabar com isso/Não sou nenhum pai-joão/Quem trouxe você fui eu/Não faça papel de louca/Prá não haver bate-boca dentro do salão). Sua importância está associada a um tipo de samba mais sincopado, com letras que funcionam como crônicas do morro carioca e – muitas vezes, das suas próprias aventuras amorosas.

 

Pereira é também um nome associado à cinematografia nacional. Além do filme homônimo de 1952 dedicado à vida do sambista Sinhô, no qual afirma-se que Pereira fez uma participação (o filme é dado como perdido), houve produções anteriores com o sambista. Em 1946, a Cinédia lançava um dos maiores sucessos da bilheteria nacional, O Ébrio, de Gilda de Abreu, com atuação de seu marido, o cantor Vicente Celestino (de quem adaptou a música para as telas), sucesso de público que acabou eclipsando outro importante lançamento da Cinédia, à época do Carnaval, Caídos do Céu, em que desfilam vários astros da MPB de então, incluindo Geraldo Pereira que faz dueto com Dercy Gonçalves na canção Diálogos ao luar. Pereira também já havia participado em um filme censurado pela ditadura, Samba em Berlim, e há rumores de que também foi ou seria fotografado por Orson Welles em É tudo verdade.

 

Segundo o dicionário Cravo Albim, Geraldo Pereira nasceu em Juiz de Fora (MG) e foi para o Rio, no morro da Mangueira, tomar conta de um boteco do irmão. Lá logo se enveredou nas rodas de samba e na malandragem da Lapa, fazendo muitos sambas de sucesso, sucesso gradativa e devidamente convertido e bebido em noites cariocas. Durante o dia, trabalhava como motorista de caminhão de lixo no Rio, função que exerce até a controversa morte em maio de 1955, aos 37 anos, atribuída a uma briga de faca com o lendário Madame Satã – versão contestada por Karim Ainouz, autor de filme sobre o Satã, que declarou que havia três certidões de óbito associadas à causa mortis de Geraldo Pereira, uma delas, inclusive, associada à bebida.

 

É essa persona fragmentada que Sette leva às telas em uma produção de 80 minutos, tendo nos papéis principais o sambista Gérson Rosa e a passista Rosana Silva (no papel de Bebel,  a “única” musa de Pereira). Filmado em Minas e Rio de Janeiro, Sette optou por convidar outro músico de Juiz de Fora, o compositor Márcio Hallack, também responsável pela trilha sonora do curta-metragem João Carriço, o amigo do povo, outro personagem importante da cidade mineira e que foi um dos pioneiros do cinejornalismo no estado e no país.

 

Quem vai ao filme procurando uma cinebiografia tradicional pode se decepcionar. A opção do diretor é partir de uma discussão de amigos em um boteco para a idéia de um filme sobre o sambista, deixando clara a quebra da “quarta parede” logo de entrada para o público, solução que marca, acertadamente, o final do filme. Ao explicitar que se trata de uma idéia de produção que obviamente vai sendo materializada no próprio filme, Sette fica livre para explorar o que há de mais rico no material remanescente de Pereira, que são as suas próprias músicas. Alternando tempos atuais e antigos, o diretor estrutura boa parte do filme recorrendo às situações apresentadas pelas letras das próprias canções.

 

Assim, estas situações ora são simplesmente apresentadas como números musicais que podem ser facilmente isolados do filme, ora os números musicais se incorporam visceralmente à trama: por exemplo, o samba Cabritada Malsucedida, cuja letra fala de uma invasão da polícia durante uma cabritada no morro é representada, no filme, por uma cena que reconstitui a ação. Esse indiciamento às vezes pode soar ostensivo na produção e remeter aos primeiros tempos do videoclipe, quando as imagens representavam exatamente aquilo que era cantado pela letra da música. Mas a opção de Sette não se mostra equivocada porque, como dito, o que há é uma ostensiva preferência por falar mais da música do que da vida do artista – e aí é que surge o detalhe importante: em menor número, também são intercaladas cenas com uma ou outra reconstituição de episódios atribuídos à biografia do artista e, nesta ligação interessante, Sette acaba usando e incorporando parte do que é dito pelas letras à própria e lacunar biografia do sambista, mesclando pois a idéia de vida e obra. Afinal, como dito anteriormente, os sambas de Geraldo Pereira evidenciavam crônicas cariocas das quais ele, certamente, é, de fato o protagonista principal. Mesmo na controversa morte após a briga com Madame Satã, Sette sabe conciliar duas possíveis versões do fim do artista ao mesmo tempo em que, após o fim do filme, mantém viva a idéia do sambista como um artista inspirado, afeto à boa música, às morenas e às noitadas. 

 

Filmes Citados:

É tudo verdade (It’s all true, 1942, 1993/dirigido por Orson Welles)

Samba em Berlim (idem, 1946/Adhemar Gonzaga)

Caídos do céu (idem, 1946/Luís de Barros)

O Ébrio (idem, 1946/Gilda de Abreu)

O Rei do samba (idem, 1952/Luís de Barros)

O Rei do samba (idem, 1999/José Sette)

João Carriço, o amigo do povo (idem, 2000/Martha Sirimarco)