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por Leo Cunha
O filme é uma porcaria... ou, melhor, é brilhante! (Parte 2)
Na parte 1 deste artigo, citei e comentei vários críticos estrangeiros que “voltaram atrás” em suas análises de filmes, seja para elogiar a obra criticada anteriormente, seja para fazer o movimento inverso. Nesta parte 2, quero trazer o tema para o Brasil, destacando principalmente Inácio Araújo, respeitadíssimo crítico da Folha de S. Paulo. Costumo discutir com meus alunos da faculdade de jornalismo um episódio curioso, envolvendo Bicho de Sete Cabeças, filme de Laís Bodanzky que recebeu duas críticas bastante divergentes assinadas por Inácio.
No primeiro texto, publicado em 10/08/2003, o crítico recorre a uma divisão que lhe é bastante cara e recorrente: aquela entre filmes “demonstrativos” e filmes “mostrativos”. Os primeiros são aqueles que usam as imagens como um meio para transmitir uma mensagem qualquer (seja política, ideológica, religiosa, moral, etc). Nestas obras, os diretores acreditam “que a força de sua convicção equivale à verdade e buscam convencer o espectador disso”. Costumam ser chamados também de “filmes de tese”. Na segunda categoria estão aqueles filmes mais preocupados em contar uma história, apresentar uma questão sem dirigir o espectador a esta ou àquela conclusão. Com isso, permitem leituras mais abertas, sentidos mais ambíguos.
Pois bem: para Inácio Araújo, Bicho seria um típico representante da primeira categoria, na medida em que aponta o dedo, de forma unívoca e explícita, contra os pais intolerantes e ignorantes que preferem internar o filho num manicômio a buscar outras formas de lidar com a questão. O problema é que tal premissa, segundo o crítico, seria óbvia e infantil. Não por acaso, o filme teria agradado “uma legião de fãs adolescentes que sofrem nas mãos dos pais (ou pensam que sofrem, dá no mesmo).”
Inácio conclui que o filme, devido justamente ao seu caráter demonstrativo, só serviria ao espectador que vive “em busca de um guru, de alguém que lhe indique o caminho”. Não há, em todo o texto, sequer uma palavra elogiosa à diretora, aos atores, à trilha sonora, à edição, elementos que vinham recebendo destaque até então, por parte da crítica.
Ocorre que um ano e meio depois, nas páginas da mesma “Ilustrada”, Inácio retornou ao filme de Laís Bodanzky, mas com uma postura bem mais favorável. Logo na primeira frase, a surpresa para quem tinha lido a crítica anterior: “Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, é um dos filmes mais interessantes feitos no Brasil, nos últimos anos, por motivos diversos”.
Segue-se uma série de elogios, por exemplo, ao “feliz investimento em marketing, algo de que o cinema nacional devia perder o medo de uma vez por todas.” Mas os louros se voltam sobretudo à diretora, que, segundo Inácio, revelava talento em sua estréia em longas, principalmente em dois aspectos: a direção de atores e a “ótima ambientação obtida nas cenas do asilo psiquiátrico”. Em 2007, foi membro do júri do Festival de Cinema de Brasília, que deu a Laís o prêmio de Melhor Direção, por Chega de Saudade (embora, segundo informações de jornalistas que lá estiveram, os preferidos de Inácio fossem Carlos Reichenbach e Julio Bressane).
Outra diferença merece ser destacada entre as duas críticas de Bicho de Sete Cabeças. Como citei acima, no primeiro texto Inácio tachara o filme de pueril e feito sob medida para os jovens que se julgam oprimidos, “uma legião de fãs adolescentes que sofrem nas mãos dos pais (ou pensam que sofrem, dá no mesmo)”. Já no segundo texto, o crítico percebe a questão de outro ângulo: “Bodanzky opta pelo olhar dos jovens, em contraposição ao dos pais. Ganha o público adolescente e pós-adolescente”.
Vale registrar que as queixas de Inácio quanto ao aspecto “demonstrativo” do filme não desapareceram por completo na segunda crítica. Ele lamenta, por exemplo, a oposição forçada entre mocinho e vilão, “que acaba reduzindo uma questão social a um problema de roteiro”. Mas esta ressalva fica bastante atenuada diante do tom elogioso que predomina no texto.
Ao se permitir esta sutil mudança de percepção, este deslocamento do olhar, Inácio engrandece o filme e, ao mesmo tempo, se engrandece como crítico. É uma pena que poucos leitores tenham o hábito de acompanhar sistematicamente os textos de um mesmo crítico, pois a leitura comparada destas duas críticas funciona como uma aula não apenas de cinema, mas também sobre o olhar crítico, sobre a crítica como um processo aberto e provisório, e não um veredito definitivo sobre a obra.
Vale registrar, também, que Inácio não menciona, no segundo texto, a existência de uma crítica anterior feita por ele ao mesmo filme, ao contrário dos exemplos citados na parte 1 deste artigo. Mas isso talvez se deva ao espaço limitado de que o crítico dispunha no jornal, espremido, como sempre, entre a programação televisiva, uma coluna de curiosidades, uma tirinha, etc... Neste sentido, é muito salutar a leitura dos blogs e sites de crítica, onde as restrições de espaço são mínimas. O próprio Canto do Inácio, blog que traz crítica e artigos do próprio, é um bom exemplo disso.
Em diversos outros casos, Inácio não hesitou em explicitar este caráter processual da crítica, seu aspecto de work in progress. Um exemplo interessante ocorreu quando da exibição de Em busca da vida, de Jia Zhang-Ke. Na crítica publicada em 31/10/2006 na Ilustrada, Inácio relatou que, na saída da sessão, encontrou o escritor Bernardo Carvalho que, com a mão, fez sinal de que havia gostado muito do filme. Inácio, bem menos empolgado, respondeu com o dedo apontado para o lado, “significando, talvez, minha perplexidade diante da ficção de Jia Zhang-Ke, talvez minhas reticências em relação a parte do cinema oriental, chinês sobretudo”.
No parágrafo seguinte, porém, Inácio explica que não demorou a mudar de opinião, pois as imagens teimaram em permanecer em sua cabeça. Ao final do texto, conclui: “A medida que o tempo passa, após a sessão, o filme de Zhang-Ke deixa ver sua solidez.”
Fato semelhante foi relatado pelo cineasta e crítico Kleber Mendonça Filho, em mesa-redonda na 1ª Mostra Filmes Polvo de Cinema e Crítica, recém promovida em BH por nossa equipe. Falando sobre o filme Superbad: é hoje, Kleber contou que saiu da pré-estréia com uma avaliação bastante negativa. Mas, quando se sentou para escrever a crítica, três dias depois, vieram à tona boas impressões e o resultado foi um texto preponderantemente elogioso.
Voltando a Inácio Araújo, não é raro encontrar textos seus em que ele ressalta ter mudado de opinião, ou ainda o fato de não compreender de imediato, de forma mais ampla, o impacto e os sentidos de um filme. Aconteceu recentemente com Cão sem Dono, de Beto Brant, sobre o qual escreveu em 25/06/2007: “Tem filme de que eu saio percebendo que não sintonizei direito. Acho que aconteceu com o Cão sem Dono, de que eu gostei, com a sensação de que me escapou, ao mesmo tempo. É uma tortura quando isso acontece e a gente tem de escrever a respeito, porque o crítico tem de fazer sempre o número do especialista, daquele que sabe. O fato é que eu não sabia muito bem, quando vi o filme, e não sei muito bem agora.”
Com relação a Tropas Estelares, Inácio destacou outro aspecto da questão: a forma como muitas vezes já entramos para assistir a um filme munidos de diversas idéias pré-concebidas. No texto, sintomaticamente intitulado No cinema, nossos preconceitos nos dirigem, ele escreve: “Alguém espalhou o boato de que o filme seria nazista, e a coisa emplacou. Talvez porque o diretor se chame Paul Verhoeven – nome suspeito. Talvez porque use imagens à la Leni Riefenstahl, logo no início. Não lhe ocorreu que essas imagens buscam um efeito humorístico? No entanto, é evidente. De modo que não se sabe mais onde termina a ignorância e onde começa a má fé.”
Não é segredo que o Inácio admira Verhoeven. No mês passado (22/02/2008), por exemplo, teve a coragem de elogiar o mais espinafrado filme do diretor holandês: Showgirls. “E por que o filme é tão ruim? Dizem que, tratando de garotas eróticas, não tem erotismo. Bem, eu achei Berkley ótima justamente por isso: vive nua, mas não transmite sensualidade. Seu corpo é como uma armadura. Ela é um robocop. Um robô erótico. Isso é o que filme tem de original, de notável.”
Não é à toa que Inácio Araújo foi, possivelmente, o crítico mais citado e elogiado nos debates da 1ª Mostra Filmes Polvo de Cinema e Crítica. Um profissional de sua estatura sabe perfeitamente como se formam os juízos e por que é essencial defendê-los, até quando mudam.
Filmes citados:
Bicho de Sete Cabeças (2001 / Laís Bodanzky)
Cão Sem Dono (2007 / Beto Brant)
Chega de Saudade (2007 / Laís Bodanzky)
Em busca da vida (Still Life, 2006 / Jia Zhang-ke)
Showgirls (idem, 1995 / Paul Verhoeven)
Tropas Estelares. (Starship Troopers, 1997 / Paul Verhoeven)
Site citado:
Canto do Inácio (http://cantodoinacio.blogspot.com)








