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por Leo Cunha
O curioso caso de David Fincher

Como já escreveu Inácio Araújo, em matéria de cinema vivemos imersos em nossos preconceitos. E no resto da vida também, mas não vem ao caso. Para nós, cinéfilos, este preconceito passa, acima de tudo, pelo apreço que temos (ou não) pelo diretor.
O diretor que eu não gosto eu chamo de panfletário, o que eu gosto eu chamo de engajado.
O diretor que eu não gosto é didático, o diretor que eu gosto é instrutivo.
O diretor que eu não gosto faz dramalhão, o que eu gosto não tem medo do melodrama.
O filme do diretor que eu não gosto é mera auto-ajuda, o filme do diretor que eu gosto é inspirador.
O diretor que eu não gosto é esquemático, o que eu gosto se apóia na narrativa clássica griffithiana.
O diretor que eu não gosto é repetitivo, o que eu gosto é fiel ao seu estilo.
O que eu não gosto é maneirista, o que eu gosto é detalhista.
O diretor que eu não gosto faz concessões, o outro sabe o que o público quer.
O diretor que eu não gosto é vulgar, o que eu gosto não tem medo da vulgaridade.
O filme do fulano eu critico como grotesco. Com a assinatura do beltrano, talvez eu elogiasse como escrachado.
O filme do fulano eu entendo como precário. Se fosse do beltrano, talvez eu visse como despojado.
Fulano é apelativo, beltrano é sexy. Fulano é sádico, beltrano é transgressor.
O filme do fulano só tem explosões. O filme do beltrano? É explosivo!
O diretor que eu não gosto é ambíguo moralmente, o que eu gosto não quer julgar os personagens.
O diretor que eu não gosto é moralista, o que eu gosto faz fábulas modernas.
O diretor que eu não gosto é um misantropo, o que eu gosto conhece a ignomínia dos homens.
Como é confuso o diretor que eu não gosto! O que eu gosto... não quer explicar tudo.
O diretor que eu não gosto apela ao deus ex machina. O que eu gosto tira um ás da manga.
Não gosto do diretor X porque ele faz polêmica vazia; gosto do diretor Y porque ele provoca o espectador.
X permitiu atuações exageradas; Y conseguiu atuações intensas.
Os filmes de X não têm história. Os filmes de Y são exercícios de abstração.
O diretor que eu não gosto ficou limitado ao videoclipe, o que eu gosto não tem medo de remeter ao videoclipe.
Eu não gosto deste diretor porque ele passou a vida fazendo publicidade e depois ousou fazer cinema; eu gosto daquele diretor porque está pouco se lixando para os críticos mesquinhos que dizem que ele passou a vida fazendo publicidade e depois ousou fazer cinema.
E assim, exageros e brincadeiras à parte, chegamos a David Fincher, um cineasta que, gostam de lembrar, começou a carreira dirigindo comerciais e videoclipes. Quase ao mesmo tempo em que O curioso caso de Benjamin Button ia para as telas do mundo inteiro, o público norte-americano pôde assistir à estréia de Fate, o mais recente comercial da série “Leave Nothing”, da Nike, dirigido por Fincher. Ao final do texto, deixo o link para este e para outro excelente comercial da mesma série, dirigido por Michael Mann, ambos passados no universo do futebol americano. A comparação dos dois permite, em 60 segundos, vislumbrar que tipo de cinema interessa a cada um. Mann é um cineasta que, acima de tudo, cria grandes imagens, e a partir delas conta suas histórias. Fincher é um excelente contador de histórias e para contá-las elabora imagens grandiosas. Cada um em seu campo e estilo, são brilhantes no que fazem.
Mas Fincher, mais que Mann e outros, é censurado por seu passado (e presente) no mundo dos clipes e comerciais. Os arrepiantes Seven e Clube da Luta receberam esta pecha e mesmo Zodíaco, elogiado de forma quase unânime, foi apontado por muitos como exceção numa obra onde predominariam a estética publicitária, o apuro visual sem conteúdo, a polêmica vazia e um certo cinismo, todos aparentados, de forma menos ou mais direta, com o universo publicitário.
Estes mesmos críticos provavelmente apontarão Benjamin Button como a confirmação disto. Como exemplo, recorrerão, com alguma razão, à lamentável seqüência final, com sua mensagem na linha “cada um tem sua vocação”. Enquanto vemos uma espécie de clipe relembrando os principais personagens, Button despeja em off: “Some people were born to sit by a river. Some get struck by lightning. Some have an ear for music. Some are artists. Some swim. Some know buttons. Some know Shakespeare. Some are mothers. And some people dance...”
É mesmo uma cena infeliz e desnecessária, além de descontextualizada (em tema e tom) do restante do filme. Seria imposição da produção, para contornar um final tão inapelavelmente triste? Talvez. Mas, descontando este deslize (que felizmente é curto, não dura dois minutos), enxergar um filme da magnitude de Button como um longo comercial é má vontade. Pelo contrário, acredito que Fincher realizou, se não seu melhor filme (Zodíaco permanece imbatível, e sobre ele sugiro esta crítica do colega polvo Leo Amaral), certamente sua obra mais emocionante (e não piegas), mais sensual (e não apelativa), mais bem acabada tecnicamente (sem cair na estilização gratuita ou no maneirismo).
Não vejo Fincher como um diretor centrado na ação, ao contrário das aparências. Mesmo quando há muitas peripécias, reviravoltas, movimentação e/ou deslocamento dos personagens, parece que seu interesse maior sempre se volta para os conflitos internos, para a tensão psicológica a que se expõem ou se propõem aqueles tiras (Seven), jornalistas (Zodíaco), sujeitos ordinários (Clube da Luta). Em Button, também, o ponto forte não é propriamente “o curioso caso” do sujeito que nasce velhinho e rejuvenesce até morrer como bebê, mas as implicações deste “incidente” nas escolhas, nas decisões, nos sentimentos de Benjamin e de sua amada Daisy. Raras vezes Hollywood mostrou com tanta incisão, e sem cair no dramalhão, o sofrimento que é ter um amor condenado ao fracasso, ou a dor de ter um filho e não poder vê-lo desabrochar.
Numa das cenas mais comoventes do filme, Benjamin carrega no colo seu pai doente para assistirem juntos ao sol nascer, na beira do rio. A cena, em si, não teria nada de extraordinário, não fosse o fato de espelhar sutilmente, com sinal invertido, outra cena, no início do filme, em que o mesmo pai, na calada da noite, carrega o bebê-monstro Benjamin no colo para jogá-lo no rio. O gesto de Benjamin, naquela aurora, é profundamente humano, humanista mesmo. Para quem já foi acusado de misantropo (sobretudo na fase Seven e Clube da Luta), Fincher se revela um grande observador e admirador da grandeza humana, mesmo quando esta grandeza é inseparável de nossa pequenez diante do mundo e do destino.
É com cenas como esta que a tragédia vai se instalando, de forma crescente, na percepção do espectador. Não haveria outro final possível e, diante de tamanha amargura e desencanto, só nos restam as lágrimas e a catarse. É bem verdade que Fincher nunca foi adepto de um final feliz, ou plenamente feliz. Mas pelo menos oferecia, de maneira menos ou mais evidente, uma solução semi-vitoriosa para o(s) herói(s), em seu embate com o vilão (o serial killer, o alienígena, ou mesmo o tal “sistema”, no caso de Clube da Luta). Em Button, não há antagonista a ser combatido. O único “vilão” é o tempo, ou, por que não, a própria vida, a mais implacável companheira, de quem nos despedimos diariamente, mesmo que os ponteiro relógios girem no sentido inverso.
A grande diferença entre Benjamim Button e Forrest Gump (há uma série elementos recorrentes entre os dois roteiros de Eric Roth, já devidamente enumerados pela crítica) é justamente o fato de que o filme de Fincher tem um fundo trágico, enquanto o filme de Zemeckis é um épico de tom mais leve e irônico, e matiz político mais evidente.
É importante considerar, ainda, que, quando escreveu o conto que inspirou o filme, em 1922, F. Scott Fitzgerald não poderia imaginar a avalanche de obras de auto-ajuda que tomou conta do mundo atual. O autor criava, por meio de sua fábula, uma metáfora para um mundo velho e decrépito, que acabava de “morrer” com uma guerra mundial, e que embora tivesse o potencial para rejuvenescer, para reviver, jamais conseguiria esquecer toda a decadência anterior. Como Fincher resolveu (ou foi contratado para) fazer um filme a partir desta premissa, seus desafetos enxergarão na obra um olhar pessimista, passadista e até mesmo conformista. Outros perceberão uma crença no homem, uma doce melancolia e até mesmo um convite à reflexão.
Filmes citados:
Alien 3 (Alien 3, 1995 / David Fincher)
O Clube da Luta (Fight Club, 1999 / David Fincher)
O curioso caso de Benjamin Button (The curious case of Benjamin Button, 2008 / David Fincher)
Forrest Gump - o contador de histórias (Forrest Gump, 1994 / Robert Zemeckis)
Seven – os sete crimes capitais (Se7en, 1995 / David Fincher)
Zodíaco (Zodiac, 2007 / David Fincher)
Comerciais citados:
Fate (comercial da Nike, dirigido por David Fincher, disponível no YouTube no endereço www.youtube.com/watch?v=jlXRengzZoc)
Leave nothing (comercial da Nike, dirigido por Michael Mann, disponível no YouTube no endereço www.youtube.com/watch?v=GX_5tzwVz3I)








