Duelo Antes da Noite, de Alice Furtado (Mostra Cinéfondation)

por João Toledo

 

Duelo Antes da Noite, de Alice Furtado, é um filme às vezes duro e sem jeito frente às referências que ele articula. E trata-se, sobretudo, de referências onde a liberdade e um certo fluxo orgânico das imagens parece sempre fundamental. Do cinema do tailandês Apichatpong se herda a relação com uma certa estranheza e um aspecto fantástico naturalizados no universo diegético, de Gus Van Sant o interesse pela juventude e a maneira de acompanhar seus corpos que circulam quase que perdidos no espaço, e que se modificam profundamente e sutilmente no trajeto. Ainda que sob o signo de uma transformação, de uma busca por retrabalhar os paradigmas herdados, é inegável que se trata de um filme onde as referências se fazem muito presentes. E essa digestão se apresenta de maneira talvez consciente demais – programática, quase como a afirmação de uma tese, de um projeto de cinema, como uma tentativa de se alinhar a um certo cinema contemporâneo. O investimento racional parece se sobrepor ao investimento sensorial, questão central não apenas para suas matrizes, mas para seu próprio projeto. Ainda assim, acompanhamos com algum interesse - e minimamente carregados e envolvidos pela atmosfera criada - a trajetória do casal de garotos que caminha pela mata. 

O caráter fabular apocalíptico do filme nos arremessa para um universo paralelo que ao mesmo tempo mantém uma certa proximidade com o estado concreto das coisas. Porém, trata-se de um olhar vago, que mantém em suspensão todos os fatos e não nos permite aproximar muito daquele universo estranho. Isso é muito produtivo para o suspense na medida em que esses dados vagos criam uma expectativa do porvir, alimentada pelo tempo dilatado do filme. No trajeto, marcado por esses pequenos índices de perigo e violência, a relação dos garotos se desenrola sem que muito se revele sobre a natureza dessa relação. Sabe-se que há um conflito que torna duro o trato entre eles, ainda que, nos momentos de cansaço e solidão, se apóiem um no outro e se permitem momentos de afeto que desconstroem suas máscaras. 

O não-naturalismo, no entanto, marcado por um esvaziamento um tanto quanto bressoniano da expressividade dos atores, acaba por deixar aqueles personagens – já inacessíveis – bastante distantes. Isso esteriliza o filme, que já é marcado por uma certa dureza, por um trato ainda pouco hábil da articulação entre personagens e espaço. E, no fim, a cena da despedida, ainda que guarde em seu mistério uma intenção de hermetismo pouco produtiva (talvez porque falte ao longo do filme maior força de envolvimento no mistério), carrega alguma potência na emoção que enfim se realiza.

 

* Visto na 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Filme Citado:

Duelo Antes da Noite (2010/Alice Furtado)

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