Midnight in Paris, de Woody Allen (Fora da Competição)

 


por Ursula Rösele

Desafio curioso: assistir Midnight in Paris e levantar uns minutos antes do crédito para tentar entrar na coletiva de imprensa à qual Allen falará sobre o filme. Nosso editor, Rafael Ciccarini, já havia mencionado acerca do frisson que o diretor causa em Cannes em texto de You Will Meet a Tall Dark Stranger (aqui), mas ver a movimentação ao vivo é uma experiência sem igual. Se em Memórias o diretor ironizava a si próprio ao interpretar um diretor de cinema que só fazia sucesso na Europa, aqui no Festival isso é levado ao extremo, visto que ele é aguardado de fato como um Deus, enquanto que seus atores andam atrás dele e mal se ouve seus nomes pelos jornalistas que se engalfinham e gritam “Woody” a plenos pulmões. Parafraseando Ciccarini, aqui em Cannes é política do autor na veia. De fato.

Após filmar a belíssima sequência em que dança com Goldie Hawn (aqui) às margens do rio Sena em Todos Dizem eu te Amo, Woody Allen volta à Paris e dedica à cidade um amor compatível com o que sente por Nova Iorque. Allen jamais fará um Manhattan novamente, mas é certo que quando se apaixona por um lugar, este se torna o receptor maior do olhar e devoção do diretor. Para apresentar Paris o diretor excluiu praticamente todos os créditos iniciais e inseriu diversos planos de lugares característicos da cidade enquanto ouvimos o off de Owen Wilson enaltecendo Paris de todas as maneiras. Enquanto o ator fala vemos a cidade ao longo de todo o dia – pela manhã, à tarde e à noite. A cidade que é bela em qualquer luz e – para o protagonista – mais bela ainda na chuva.

Allen é um diretor que embebe seus filmes de sua presença ainda que não atue neles. Em Midnight in Paris ele sai de cena e oferece sua persona para que Owen Wilson se inspire com seu humor e mise-en-scène característicos e realize o papel de protagonista deste filme. Este não é um movimento novo, fato. John Cusack, Will Ferrell e Larry David (para citar alguns) já adicionaram um pouco de Allen às suas atuações em seus filmes e mantiveram – em diferentes proporções, claro – um pouco de si também. Wilson consegue uma mistura adorável ao apropriar para si um devaneio de Allen no qual o diretor flerta com a nostalgia de A Era do Rádio e se permite adentrar novamente nos delírios oníricos de A Rosa Púrpura do Cairo.

Em Annie Hall o personagem de Allen consegue escapar por uns instantes da realidade ao convocar Marshall McLuhan para interromper as besteiras ditas por um pseudo-intelectual numa fila de cinema. Em Midnight in Paris o personagem de Wilson, à meia-noite, consegue fugir de um mala também pseudo-intelectual e de sua noiva (burguesa e totalmente vazia) e adentrar em um universo no qual pode dividir suas inquietações criativas (o ator faz o clássico papel do escritor incompreendido e em crise) com nada menos que Scott Fitzgerald, Pablo Picasso, Cole Porter, Luís Buñuel, Ernest Hemingway e Gertrude Stein, dentre outros.

Midnight in Paris é um pouco disso tudo acima: os filmes de Allen, suas neuroses, paixões e relação com a arte. Em A Rosa Púrpura do Cairo a personagem de Mia Farrow , em meio à Grande Depressão, encontra uma válvula de escape no cinema e literalmente adentra a tela e imerge dentro do filme que assistia repetidamente. Já no filme A Era do Rádio a voz de Allen toma forma de um personagem que não aparece, e o diretor se permite rememorar a era de ouro do rádio em meados dos anos 1940. Esta mistura de suas próprias referências e interesses resultou, em Midnight in Paris, em um filme adorável, no qual Owen Wilson, com todos os trejeitos, gagueiras e desconfortos com as vicissitudes do universo burguês, se transporta aos anos 1920 – dele retirando inspiração e permitindo-se perder-se para que possa, enfim, recuperar seu caminho.

Midnight in Paris é também um lugar de autocrítica, no qual o saudosismo toma forma sem se perder em apenas um elogio extremado de um outro tempo, visto que o diretor não abandona os estereótipos, hipocrisias e pequenezas que são inerentes à nossa própria existência, em qualquer tempo que seja. Seu personagem idealiza os anos 1920, mas também o vivencia no que tem de vazio e incompleto. Seja no olhar que dirige a Fitzgerald e sua esposa – talentosos, mas também fanfarrões (esse, que chegou ao fim da vida em profundo ostracismo e sua esposa, que foi parar em um hospício). Seja na amante de Picasso (e, de acordo com o filme, também de Modigliani e Braque) que vai à Belle Époque com o personagem de Wilson e decide ficar por lá. E também Hemingway, que, em meio a muita bebida, não consegue abandonar as memórias e angústias de sua experiência na Primeira Guerra.

À meia-noite em Paris é permitido ao personagem de Wilson vivenciar esta angústia tola que nos permeia: a nostalgia do tempo que não vivemos. A arte está lá, é fato, mas ela permanece – ainda bem -, mesmo que alguns insistam em ignorá-la para dar vazão à superficialidade e escapismos comodistas. E permanece também no cinema de Allen, que prima pela nostalgia de uma bela maneira: articulando artifícios para possibilitar viagens no tempo, sem que nos esqueçamos de voltar.     

*Visto no Festival de Cannes 2011.

Filmes Citados:

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall, 1977/Woody Allen)

A Era do Rádio (Radio Days, 1987/Woody Allen)

A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985/Woody Allen)

Você Vai Conhecer o Homem de seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010/Woody Allen)

Midnight in Paris (2011/Woody Allen)

 

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