Sleeping Beauty, de Julia Leigh (Competição)

 

por Ursula Rösele

Apesar do ideário em torno dos contos de fadas que envolve a maxima “foram felizes para sempre”, tendo a achá-los tenebrosos, pois geralmente são carregados de uma névoa que é própria do universo adulto e da ausência de inocência, no qual é inevitável aceitarmos a predominância - e força - do mal. O mal é aquele que surge quando é prenunciada a felicidade eterna: a beleza de Branca de Neve invejada pela bruxa; a jovem que é punida com o sono eterno até que encontre o verdadeiro amor, em A Bela Adormecida. Nesses mesmos contos de fadas, para se livrarem do mal, é necessário evocar a morte, o aniquilamento do opositor: a bruxa que derrete, a magia que é invertida e faz com que aquele que propagou o mal sofra com ele, etc.

A transposição deste universo para a lógica do mundo contemporâneo permite trazer consigo uma carga ainda maior de pessimismo e descrença, e, no caso específico de Sleeping Beauty, também de profunda resignação. A bela da vez do conto de fadas de Julia Leigh é Lucy, jovem de nome e rosto doces, porém, cuja vida é repleta de segredos e submissões. Este filme concentra ares de Bataille, Buñuel, Pasolini e, em alguma medida, De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick. Referências quase explícitas (principalmente em uma das cenas em que ocorre um jantar com senhores engravatados no qual jovens seminuas servem a eles pratos franceses sofisticados e grande variedade de bebidas), mas que resultam em uma obra sui generis, que encontra sua potência sem precisar necessariamente se escorar nos prováveis artistas que a inspiraram.

Nada fica muito claro ao espectador neste filme. Lucy é resignada assim como algumas personagens dos contos de fadas clássicos, que passam por inúmeras provações sem reclamar, até encontrarem seu príncipe encantado. Cinderela, por exemplo, tem de trabalhar para sua madrasta, assim como Lucy é obrigada a lavar novamente as paredes do banheiro do apartamento que divide com um casal jovem - de joelhos. Aquele que aparenta ser seu único amigo é um rapaz moribundo que repete diariamente o que parece ser uma rotina ensaiada de diálogos com a jovem: ela serve vodca com cereais para ele, enche seu próprio copo e eles trocam amenidades. Mas quando chega a hora da morte seu último desejo também é a nudez e entrega de Lucy. Seu corpo como elemento único de seu ser.

A jovem carrega um carma consigo por onde vai. Ser objeto é quase que seu único e inevitável destino. Lucy é cobaia de um jovem cientista em uma espécie de experimento no qual ele enfia um pequeno balão em sua garganta através de um tubo enquanto ela engasga passivamente e pede para parar somente quando seu telefone toca a convocando para o cruel trabalho que dá nome ao filme. Através de um anúncio na faculdade ela aceita uma função que eleva sua resignação à catarse: ela deverá aceitar o que lhe for imposto e sua única garantia é que não sofrerá penetração – ato este que se torna sutil perto do que acontece com ela.

Após Lucy trabalhar algumas vezes como uma espécie de serviçal erótica dos tais senhores da alta sociedade, Clara, sua cafetina, a oferece um serviço no qual ela receberia 250 dólares por hora de “trabalho”. Lucy deveria tomar um entorpecente que a deixaria absolutamente inerte em um sono profundo, do qual ela acordaria sem saber o que se sucedeu enquanto dormia – com o adendo irônico feito por Clara: seria como se aquelas horas jamais tivessem acontecido. A droga, diluída em uma charmosa xícara de chá ofereceria a “libertação” do constrangimento para a jovem e a liberação dos instintos mais selvagens e primitivos daqueles que aceitaram pagar uma fortuna para ter um defunto ainda quente à sua disposição.

Apesar da não-penetração, a jovem é violada de todas as formas. Os mesmos engravatados que sorriam de forma vazia e superficial enquanto eram servidos pelas mulheres de lingerie, agora têm privacidade total e pagam para exercitar um fetiche necrófilo doentio, de ter em suas mãos uma jovem nua e inconsciente com a qual poderiam fazer qualquer coisa, menos penetrá-la. Se não há a violação de seu corpo pelo falo, o há através da câmera de Leigh, que ora interfere quando basicamente encosta no rosto de um dos homens enquanto ele apaga um cigarro no ouvido da jovem; ora se afasta e nos transforma em voyeurs: um Saló contemporâneo. A câmera no tripé, inerte como Sara (cognome de Lucy durante seu “sono”), registra a perversão de outro homem, que tenta carregá-la e a derruba, enquanto que esta, nua e de cabeça para baixo, fica à mercê do necrófilo, da cena, do estupro cinematográfico a que Leigh a submete.

Um dia o encanto se desfaz: Lucy pede a Clara que a permita ficar semi-consciente para que saiba o que acontece dentro do quarto. A cafetina nega terminantemente e em seguida vemos um senhor pela primeira vez: o único que não a havia maltratado, mas dormido nu abraçado a ela. Este homem, que já havia contado uma triste história e feito Clara chorar ao dizer que havia se tornado um monte de ossos, pede para tomar a droga. Ele vira toda a xícara e deita ao lado de Lucy. Um novo corte nos revela uma imagem que se assemelha à uma câmera de segurança, evocando de alguma maneira Caché, de Haneke. A nós, cúmplices da câmera de Leigh, resta a tortura dos dois pontos de vista: o post-mortem do homem ao lado de Clara que, enfim, grita; e a imagem que nos revelaria a cena antes da chegada da cafetina: o homem, nu, deita ao lado de Lucy e assim se prenuncia o “felizes para sempre” de Sleeping Beauty – um trágico destino para aqueles que desistiram dos contos de fadas.

*Visto no Festival de Cannes 2011.

Filmes Citados:

De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut, 1999/Stanley Kubrick)

Saló (idem, 1975/Pier Paolo Pasolini)

Caché (idem, 2005/Michael Haneke)

Sleeping Beauty (idem, 2011/Julia Leigh)  

 

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