Poliss, de Maïwenn (Competição)


por Ursula Rösele

Ao filmar Shoah (nove horas e meia de um filme sobre o Holocausto que não contém uma imagem de arquivo sequer) Claude Lanzmann adotou uma postura firme a respeito da maneira com a qual julga que se deve lidar com a representação dos horrores da Segunda Guerra. Para ele não há como representar o irrepresentável, logo, optou pelo método da entrevista - de sobreviventes a nazistas: estes, filmados secretamente, uma vez que só haviam concordado em relatar os fatos através de áudio. A atriz e diretora francesa Maïwenn, após assistir a um documentário sobre os policiais do CPU – Child Protection Unit (Unidade de Proteção à Criança; algo como o Conselho Tutelar no Brasil), decidiu imergir neste universo e acompanhou pessoalmente diversos casos, além de ouvir vários relatos dos policiais acerca de suas experiências, vidas pessoais e as questões políticas que envolvem seu trabalho.

O que Maïwenn faz é uma inversão na lógica tradicional do ato de documentar – talvez impulsionada pelo fato de já haver um documentário sobre o CPU. O que lá presenciou através de sua permanência não foi filmado, mas encenado por ela e mais dez atores em uma reprodução bastante contundente, na qual construiu novas histórias para os personagens que vivem os policiais, mantendo-se fiel aos casos de pedofilia, prostituição infantil, delitos e todo um universo asqueroso que presenciou em sua experiência no  CPU. Há quem irá discordar dessa espécie de comparação do filme de Maïwenn com o Holocausto, mas o tipo de abuso retratado por ela, a meu ver pelo ao menos, não fica muito distante da animosidade propagada por Hitler. Talvez ainda mais próximo de nossa realidade atual e um problema extremamente complexo, visto que é velado na maioria das vezes.

Poliss é o resultado da pesquisa de Maïwenn e de um roteiro escrito por ela em parceria com a atriz e diretora Emmanuelle Bercot (que também atua no filme). Não sei dizer como Maïwenn conseguiu tão incrível atuação por parte do elenco infantil – ou mesmo se algumas crianças de fato haviam vivido aquelas experiências. Fato é que este documentário “às avessas” de Maïwenn é perturbador do início ao fim. Há cenas em que as crianças relatam os abusos – como, por exemplo, a que abre o filme: uma criança de aproximadamente cinco anos diz a uma policial que o pai a bolinava à noite por baixo de seu pijama. Após sua fala, uma música sobre o universo infantil e toda a magia que o mesmo envolve é cantada por várias vozes de crianças, enquanto vemos cenas de jardins de infância e várias crianças brincando. O título, Poliss, de acordo com a diretora, foi obra do acaso. Depois de verificar a existência de um filme chamado “Police”, ela viu seu filho fazendo um trabalho escolar e notou um erro na grafia da palavra escrita por ele. E assim o filme é assinado nos créditos iniciais: com uma fonte que alude à escrita de uma criança e a adoção dos dois esses – algo que curiosamente também alude ao termo polido (poli ou lisse, em francês) e ao termo grego pólis.

O CPU luta com os diversos monstros e algozes que rodeiam a pólis: homens e mulheres que abusam de crianças das mais variadas formas. De avôs que estupram bebês a pais que afirmam “fazer amor” com as filhas, Poliss é um desfile do que há de mais abominável na sociedade. A escolha por um híbrido documentário-ficção por parte de Maïwenn foi muito feliz. Se ela havia presenciado as barbaridades que os policiais do CPU enfrentam diariamente, seus atores parecem ter absorvido totalmente a dureza deste trabalho, pois se entregam a ele de forma visceral e realista: enquanto encenam os policiais do CPU, eles estão totalmente imersos naquela realidade e a câmera passeia por eles compatilhando cada movimento de seus corpos, e o mais curioso (triste, melancólico) é o fato de que os únicos que olham diretamente para a câmera em alguns momentos neste filme são justamente as crianças.

Nada mais impressionante para se relatar. Irrepresentável? Talvez. Mas se existe alguma possibilidade de diminuir a incidência desses acontecimentos, certamente precisamos receber essas imagens.

*Visto no Festival de Cannes 2011.

Filmes Citados:

Shoah (idem, 1985/Claude Lanzmann)

Poliss (idem, 2011/Maïween)

 

Leia novidades instantâneas em nossoblog.