We Need to Talk About Kevin, de Lynne Ramsay (Competição)

 



por Ursula Rösele

Das quatro mulheres que fazem parte da Competitiva deste ano, três delas já exibiram seus filmes nestes dois dias de Festival: Julia Leigh, Maïwenn e Lynne Ramsay. Seus olhares, apesar de diferentes em sua proposta estética, compartilham um desencanto impressionante com o mundo atual. Enquanto Leigh evoca os contos de fadas para construir uma narrativa perturbadora e repleta de monstros, Maïwenn vai ao mundo real para mostrá-los. Já Ramsay, em uma condução mais afetada – já presente em Morvern Callar -, faz uma espécie de mistura entre dois mundos: o de um psicopata e o universo que o rodeia.

Tilda Swinton, talvez o rosto mais andrógino do cinema contemporâneo, é a mãe de Kevin. Ramsay lida com o lado negro da maternidade através de uma montagem fragmentada que vai e volta em três diferentes tempos da narrativa, revelando seus mistérios aos poucos. Na primeira cena, Swinton mergulha em um amontoado de pessoas cobertas em uma espécie de molho de tomate, que parecem reviver os dias de Woodstock em uma metáfora óbvia que se repete em diversas cenas como se não fôssemos capazes de compreender seu sentido: o banho de sangue prometido ao longo de todo o filme (pela sequência inicial, o sanduíche de pão de forma entupido de geléia de morango que Kevin come a todo momento, o vinho que Swinton bebe todas as noites para fugir de sua realidade).

We Need to Talk About Kevin apresenta uma questão central: como agir com um filho que é mau em sua essência? Como lidar com a culpa inerente ao universo desta mãe? Bong Joon-ho, membro do júri Camera D’Or deste ano, trafega por este universo belíssimamente em Mother: ao saber que seu filho é acusado de um crime hediondo, esta mãe vai às raias da loucura para provar sua inocência. Masahiro Kobayashi também lida com esta questão em O Renascimento, ao registrar a rotina de uma mãe e de um pai, dia a dia, em seus esforços mecânicos de sobrevivência após a filha de um ter assassinado a filha do outro. Já o filme de Ramsay está mais para O Anjo Malvado que deu certo: afetado, mas também potente, visto que lida com circunstâncias tão complexas que fazem com que o tema (e indiscutível presença dos personagens vividos por Swinton e Kevin (Ezra Miller) se sobressaia aos ímpetos intervencionistas da diretora.

Quando engravida de Kevin, Eva (Swinton) entra em uma névoa humoral incompatível com o lado poético que esta experiência costuma conter. Na melhor cena do filme, ela se assenta em um vestiário com outras grávidas enquanto a câmera de Ramsay passeia sombriamente pelas diversas barrigas ao seu redor revelando-a como uma figura extraterrena naquele lugar. O distanciamento desta mãe é revelado aos poucos, em cenas como a que ela tenta embalar Kevin mantendo distância de seu corpo, ou quando o leva ao médico para tentar entender se a razão de seu silêncio e apatia não seria uma forma de autismo. A diretora segue um caminho narrativo que nos conduz invariavelmente a refletir sobre as consequências de um processo de gestação no qual a mãe rejeita seu filho, mas não se furta em confundir o espectador nas cenas às quais registra Eva tentando brincar de rolar uma bola com o garoto ou lendo histórias para ele dormir ansiando pacientemente por alguma demonstração de afeto ou envolvimento por parte dele.

O pai de Kevin - vivido por um John C. Reilly amorfo e alheio à complexidade da relação de Eva com o filho -, o incentiva a praticar arco e flexa e o garoto finalmente demonstra alguma afeição, porém, por um objeto letal, que cresce de tamanho e potência de performance à medida que Kevin atinge a adolescência. A segunda gravidez de Eva adiciona ao filme um novo componente aterrador: desta vez, esta mãe se dedica ao bebê de maneira terna, o que parece potencializar a psicopatia de Kevin: patologia inerente ou evitável? Eis que We Need to Talk About Kevin chega ao ápice e viemos a saber que a trajetória do garoto o levou a protagonizar um massacre a la Columbine e o recente e infeliz episódio de Realengo, no Rio de Janeiro.

Curiosamente a projeção de We Need to Talk About Kevin antecedeu à exibição de Restless, de Van Sant. Difícil não refletir acerca das diferenças entre o filme de Ramsay e Elefante, vencedor da Palma de Ouro de 2003. Enquanto este prima pela sutileza, esse luta pela contundência e o que sobressai é a mão pesada de Ramsay, que parece não conseguir conter seu irritante desejo de interferir na cena.

*Visto no Festival de Cannes 2011.

Filmes Citados:

O Anjo Malvado (The Good Son, 1993/Joseph Ruben)

Mother – a busca pela verdade (Mother, 2009/Bong Joon-ho)

O Renascimento (Ai no Yokan, 2007/Masahiro Kobayashi)

Elefante (Elephant, 2003/Gus Van Sant)

We Need to Talk About Kevin (idem, 2011/Lynne Ramsay)

 

Leia novidades instantâneas em nossoblog.