Restless, de Gus Van Sant (Un Certain Regard)



por Ursula Rösele

Apesar de cercado pelo universo da morte, Restless é um filme que vai a lugares onde parece não haver possibilidade de vida e lá encontra sua força, seu lirismo e um vigor incansável, na acepção mesma de seu título. Van Sant acompanha seus personagens enquanto passeiam por túmulos, penetram em velórios de desconhecidos, interagem com um fantasma e têm de lidar com a iminência da morte em meio ao seu maior momento de celebração da vida. Um filme que abre com “Two of Us” dos Beatles e fecha com uma triste canção cantada por Nico.

Van Sant abraça o clichê, a inocência e impulsividades próprias da juventude, sem pudor de parecer piegas. Enoch é um jovem peculiar, que vive com a tia devido à morte dos pais em um acidente de carro. Seu único amigo é Hiroshi, um fantasma de um rapaz japonês – ex-piloto kamikase, diga-se de passagem. Annabelle é uma garota doce, apaixonada por Darwin. Enoch arvora-se na morte como meio de vida. Já Annabelle tem de lidar com a irreversibilidade de sua doença.

Restless é o resultado do encontro dessas duas personalidades. Encontro e rápida despedida. Não se sabe se seus mortos de fato descansam em paz, mas é indiscutível que esses dois corpos que trafegam pelos espaços fúnebres do filme encontram sua transcendência ainda em vida. A cena final, provavelmente uma das mais belas já realizadas por Van Sant, alcança o máximo através do mínimo, do silêncio e do sorriso, que diz muito mais do que qualquer palavra poderia fazer. A finitude é algo irrevogável, porém, as memórias não o são. Estas sim, eternas. Restless aborda esta única garantia de permanência do homem:o olhar de amor e amizade que o outro dirige a nós. Olhar de Enoch para Annabelle. Olhar de Van Sant para o Cinema.

*Visto no Festival de Cannes 2011.

Filme Citado:

Restless (idem, 2011/Gus Van Sant) 

 

Leia novidades instantâneas em nossoblog.