Trabalhar Cansa, de Marco Dutra e Juliana Rojas (Un Certain Regard)

dutra rojas

por Ursula Rösele

Em seus curtas-metragens já ficava claro o interesse de Dutra e Rojas em abordar o mundo a partir do que há de irracional, fantástico e inexplicável em sua constituição. Deste mundo, a partir dos olhos da dupla de diretores, emergem horrores internos, manifestados através da mutação homem-natureza, de um choque que é constantemente velado; tanto pela narrativa quanto pelas imagens – que servem mais para ocultar racionalidades do que propor respostas. Se as mesmas existem, ficam a cargo da relação que estabelecemos com essas imagens.

Os espaços retratados em Trabalhar Cansa nos são perfeitamente reconhecíveis, porém, indecifráveis no híbrido que produzem entre real e fantasia, vida e morte, criadores e criaturas. Uma família de classe média brasileira. Empregados e empregadores. Após a demissão do marido, a esposa abre um pequeno comércio, contrata uma nova empregada, admite algumas pessoas para trabalharem com ela. Na superfície, questões banais, cotidianas, como é de praxe na obra de Dutra e Rojas.

A trilha é uma constante; ao invés de ser convocada apenas nos momentos de suspense que prenunciam algum acontecimento, ela permanece. Não há necessariamente um crescendo de tensão na narrativa, mas uma construção que é tensa em si, misteriosa em si, aterradora - ainda que nada de estranho aconteça com os personagens. O marido perde o emprego e embarca em uma guerra na lógica selvagem do mercado de trabalho que, embora não deixe de ser também atual, parece derivada de um período político brasileiro de alguns anos atrás (como discorre Ciccarini em crítica do filme aqui). A esposa lida com a invasão da mãe, as contas que se acumulam, as dificuldades de conduzir um empreendimento – adversidades comuns, porém, quando esta mulher dirige o olhar a alguém ou alguma coisa, o contraplano que nos revelaria a razão de seu assombro nada nos esclarece.

Se o que vemos em Trabalhar Cansa nos parece tão inverossímil, é porque deixamos de observar as entranhas da sociedade e esquecemos dos monstros que abrigamos dentro de nós. O cansaço gerado pelo trabalho parece vir da impossibilidade de coexistirem em um mesmo e equilibrado espaço, homem e natureza, ego e superego, consciente e inconsciente – questão premente em grande parcela do cinema contemporâneo (em Apichatpong, Shyamalan, Bong Joon-ho, Tsai Ming-Liang e alguns outros). Se em Tio Boonmee – que pode recordar suas vidas passadas Apichatpong iniciava sua narrativa com a imagem de um búfalo preso a uma árvore lutando bravamente por se desvencilhar em fuga de um mal que não sabíamos de que se tratava, em Trabalhar Cansa cães ladram desconfiados, defendendo-se de uma ameaça que, a nossos olhos, parece não existir.

É preciso quebrar as paredes, embrulhar e queimar o monstro de Trabalhar Cansa como se o mesmo jamais tivesse existido, mas também é necessário que o libertemos de dentro de nós. Se a esposa derruba uma parede para tentar desvendar o motivo de uma aparente infiltração ter se transformado em uma enorme mancha negra, o marido participa de uma dinâmica na qual deve se livrar das amarras, quebrar metaforicamente a parede que o impede de reagir ao que lhe acontece. A esposa se suja, o marido grita, a filha segue em silêncio e a empregada muda de emprego. Nas aparências nada está fora do lugar, porém, a partir do universo em suspenso construído por Dutra e Rojas, sabemos que as profundezas de cada um, habitam criaturas, solidões e angústias. Só não sabemos como, onde e quando elas irão se manifestar.

*Visto no Festival de Cannes 2011.

Filme Citado:

Trabalhar Cansa (2011/Marco Dutra e Juliana Rojas)

 

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