46º Festival de Brasília – Competição – Dia 1

por Marcelo Miranda

 
Curta documentário:

Luna e Cinara (RJ), de Clara Linhart

O cotidiano de uma senhora de classe média e sua empregada doméstica é intermediado pela câmera de Clara Linhart, figura ativa no processo de feitura do filme tanto por motivos estéticos (ela mantém na montagem ajustes de foco ou mudanças abruptas de ângulo) quanto pessoais (Clara é neta de Luna, a senhora). Nunca, de fato, tem-se a ilusão de um retrato puro e simples de uma relação a duas, mas, sim, o entrecho de uma relação a três (a quatro, se contarmos a câmera como elemento complementar e desestabilizador). Clara nunca se coloca na posição de dirigir suas “atrizes”, inclusive pela rebeldia de ambas e pela reiteração de que elas brigam muito e se gostam mais ainda. Significativo ao filme que, na ausência de Cinara, Luna sempre converse mais intimamente com a neta, dividindo opiniões sobre a empregada e confessando a solidão que lhe acomete (“ela [Cinara] é uma ótima companhia, mas sabe como é... Ela não é sangue...”). Nesse pequeno retrato do pedaço de uma família, tem-se, sob outro aspecto, certo tipo de extensão do exercício proposto por Gabriel Mascaro em Doméstica. O filme de Clara, porém, está em chave mais afetiva e sem a radiografia social, econômica e política que nos rebatia no trabalho de Mascaro. A proposta de Luna e Cinara parece ser a de se aproximar de dois entes queridos e captar a interação, assumindo ser sempre ela, Clara Linhart, a verdadeira dona daquelas imagens e do resultado daquilo que ela decide filmar.

 

Curta animação:

Deixem Diana em Paz (PE), de Julio Cavani

Os desenhos de Cavani Rosas (pai do realizador) são aquilo que de mais encantador se tem na relação com o filme, poético e objetivo exercício reflexivo sobre os tempos contemporâneos. Sem grandes efeitos de técnica, Julio Cavani assume o olhar da personagem Diana e dá a ela a vida possível nos traços do desenho e na voz off de Irandhir Santos. A idealização do prazer e do deleite feminino ganha força pela visão estritamente masculina a que o filme submete o roteiro, aumentando os ares de delírio e sonho que emanam de cada imagem – é como se a animação tentasse “ler” aquela mulher sem jamais ter acesso completo a ela; por isso mesmo, Diana se torna inesgotável em suas complexidades íntimas e na trajetória de perdição a qual ela parece condenada desde os primeiros instantes, a partir da inversão “trabalho” e “sono” proposta pela reflexão do filme.

 

Curta ficção:

Sylvia (PR), de Arthur Ianckievicz


Entre o silêncio das vozes e os sons da urbanidade, o filme se constrói no contato da personagem-título com seu entorno. Sylvia perambula entre treinos numa academia de boxe e o trabalho de vendedora de DVDs piratas. Por mais que ela circule, a cidade pouco parece lhe falar – e ela, menos ainda a falar para a cidade. Impassível aos movimentos, mesmo quando confrontada com uma situação inesperada, irá se manter na mesma toada – no que a atriz Juliana do Espírito Santo capta muito bem em interpretação minimalista, quase inexiste, quase um “modelo” de Robert Bresson sem reação ao mundo externo e, por isso mesmo, dando-lhe um outro tipo de vida que não o da ação-reação. A projeção dessa personagem nunca, de fato, acontecerá, na medida em que ela tem o mesmo tipo de anti-reação tanto a uma briga particular quanto a uma batida policial. Nesse vai e vém de um retrato urbano, o filme se mantém como pedaços de vidas particulares – e, por isso mesmo, o caminhar pelas ruas não vai cessar nem mesmo quando os créditos surgirem na tela.



Longa documentário:

Outro Sertão (ES), de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela



“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

(Euclides da Cunha, Os Sertões)

 

A brejeirice típica do bom mineiro surge cristalina nos trechos de uma entrevista em que o escritor João Guimarães Rosa fala a um crítico literário alemão sobre seu processo criativo e sobre a escrita de Grande Sertão: Veredas (1956). Aquela imagem de simpatia e bom papo resume na delicadeza do autor a atuação humanitária que ele teve em Hamburgo no final dos anos 1930, quando, vice-cônsul, facilitou a fuga de judeus perseguidos pelos nazistas. Há algo de muito simplório naquele entrevistado de televisão – com seu cigarro à mão, óculos fundo de garrafa, dentes problemáticos, sorriso hipnotizante e retórica sedutora – em contraste ao mesmo tempo com o gênio das letras e com o discreto herói encontrado nos relatos de filhos de judeus que conseguiram sair da Alemanha graças a ações do então jovem diplomata.

Tal visão multiplicadora de Guimarães Rosa é o que mais nos seduz no contato com Outro Sertão. O documentário dirigido por Adriana Jacobsen e Soraia Vilela se constrói em filigrana, num tipo de narrativa que muito se assemelha a um certo classicismo de causa e consequência preparativo a algum clímax que logo virá. Para tanto, as realizadoras se munem de imagens de arquivo de Hamburgo nos anos 1930, fotografias do jovem Rosa, na leitura (pela voz off de Rodolfo Vaz) de cartas e diários do escritos relatando a experiência alemã e na sonorização do duo O Grivo, que tenta, de alguma maneira, dar nova vida àquela série de imagens. Jacobsen e Vilela, portanto, chegam com um arsenal de recursos audiovisuais para dar conta de um fragmento da vida de Rosa, aquele fragmento que efetivamente lhes interessa e pelo qual elas vão se aproximando cena a cena, recorte a recorte, sem a pressa de revelarem de imediato do que, afinal, elas estão falando.

Tanto é que a entrevista de Rosa na TV alemã surge no meio do filme um tanto quanto de repente, quase uma apresentação do autor-protagonista, a personificação pela imagem daquele de quem o filme a todo tempo se refere ou mesmo assume sua “voz” através das letras. Rosa, nesse entrecho, se torna efetivamente personagem do filme, ganhando corpo, trejeitos, voz (aqui, sem aspas), personalidade. Quando o filme conclui este parênteses e retoma seu centro, é outro Rosa com quem se toma contato: não mais o Rosa de Rodolfo Vaz ou das imagens ou do Grivo ou das fotografias, mas um Rosa de carne e osso, fruto de um novo imaginário e de um estatuto que o filme prestou conta de lhe oferecer. Assim, quando enfim se revelam as ações a favor dos judeus, é aquele Rosa brejeiro que nos retorna à mente, com seu jeito de vizinho da porta ao lado fazendo piadinhas e gracinhas com o apresentador sempre de sorriso armado no rosto. É o mesmo Rosa que, na descrição da filha de uma judia ajudada por ele, surgira quase que por milagre, quieto num canto, pedindo uma semana para resolver a documentação que salvaria sua família.

O retorno daquelas imagens do escritor, ao final do filme, reforçam o imaginário construído ao longo de Outro Sertão. Interessa a Adriana Jacobsen e Soraia Vilela não exatamente louvar a escrita de um dos maiores artistas do século XX (não há deslumbramento nem hipérbole nessa afirmativa; para confirmá-la, basta ler Rosa), porque este é um dado com o qual o filme já lida desde o início. Outro Sertão existe como resgate complementar de uma biografia, como o recorte muito específico (1938 a 1942) da trajetória de um escritor cujas ações pessoais não são, em geral, resgatadas a todo canto. Daí que o filme serve a estes dois propósitos: o de revelação e também o de jogo com as imagens do passado (um Rosa aos 30 anos) em contraste com a imagem do “futuro” Rosa num programa de TV (já na faixa dos 50). Nesse embate de momentos, perspectivas e descobertas, tem-se a mineirice discreta, que o filme assume para si ao não fazer (repetindo palavra usada num dos depoimentos em relação às ações de Rosa a favor dos judeus) cambalachos nem com a imagem nem com a memória do autor. Tem-se em Outro Sertão a concretude e rara objetividade do relato (no que isso é possível). Rosa, à sua maneira, faria alguma graça se tivesse visto o filme.

 

Longa ficção: 

Os Pobres Diabos, de Rosemberg Cariry

Devido a problemas técnicos na projeção, o filme não foi exibido integralmente. Portanto, e por enquanto, sem texto.

 

*Filmes vistos no 46º Festival de Brasília, setembro de 2013

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