46º Festival de Brasília - Competição - Dia 5

Por contingências de tempo e disposição, seguem abaixo impressões de apenas alguns dos filmes exibidos no 5º dia do festival. Em breve, novas atualizações tentarão dar conta dos faltantes. 


por Marcelo Miranda

 

Curta documentário:
A que Deve a Honra da Ilustre Visita este Simples Marquês? (PR), de Rafael Urban e Terence Keller

Max Conradt Jr apresenta com orgulho o acervo pictórico de sua casa, aparentemente sem perceber ter se tornado, ele mesmo, parte daquele acervo. Nos enquadramentos fixos e distanciados, o curta faz planos-tableau que reforçam a inserção do personagem dentro de seu próprio imaginário e memória. Max Conradt Jr vive do e para o passado, remexendo livros, relembrando coleções, revivendo histórias e, em determinado momento, reencenando situações e imitando vozes de outros tempos. Ele é como um fantasma flutuando no espaço da casa, ao mesmo tempo em que a forma rigorosa do filme (pela qual a montagem, assinada por Larissa Figueiredo, tende a esperar o respiro da imagem antes do próximo corte) permite que aquele senhor ganhe vida diante da tela - a ponto de, no fim, quando os mesmos espaços vistos anteriormente são reenquadrados sem a presença de Conradt Jr, termos a impressão de que ele ainda está ali, escondido em algum canto da imagem.


Apenas quando relembra a relação inexistente com o pai é que o personagem se revela mais do que a seus pertences, num ato que parece surgir tarde demais: "para todos os efeitos, o pai da criança", diz ele, apontando o quadro pintado pelo pai que ele nunca conheceu de verdade. O quadro é seu pai, porque Conradt Jr só existe através de suas coleções e da memória. A sensação se reforça no desfecho, quando ele surge diante de uma parede totalmente branca, raro espaço sem nenhum outro elemento além dele mesmo: ao entrar em cena, Conradt Jr imediatamente é emoldurado por aquele espaço. Ali, solitário numa parede, ele se torna definitivamente um quadro (uma memória, um instante) de sua casa e de sua vida.



Curta ficção:

Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar (RJ), de Felipe Bragança e Helvécio Marins Jr

 

Do encontro delirante entre um índio, um português e o imaginário de um brasileiro, tem-se aqui a reconstrução das relações entre colonizadores e colonizados e uma resposta imediata e contemporânea à crise econômica que assola Portugal. O filme se liberta de discursos sobre quaisquer de seus "temas" para brincar ironicamente com a iconografia mais evidente dos elementos aos quais se refere. Diálogos abertos com os cinemas de Julio Bressane, Miguel Gomes e Carlos Prates Correia se integram a um discurso bastante particular, que os realizadores assumem com saudável jocosidade (e um tanto de afetação) para se desprenderem da "agenda" mais típica de histórias sobre relações entre países. De um lado o dado anacrônico (a troca de cartas), do outro a urgência do momento (a quebradeira em Portugal e as dificuldades de o Brasil se desenvolver): em ambos, o risco de como lidar com elementos tão já impregnados de História e a idealização de um paraíso que só pode existir enquanto projeção utópica. 


Longa ficção:

Riocorrente (SP), de Paulo Sacramento

 

“Mas esse mundo não podia ser apreendido senão por um meio-termo, era preciso recriá-lo em uma matéria indireta, transpô-lo, proceder por alusões e convenções, na impossibilidade de uma possessão imediata.”

(Michel Mourlet)
 

"Cinema pode ser isso também: sonho que ninguém sonhou."

(Jairo Ferreira)


Mais do que o estilhaçamento de uma narrativa, o filme de Paulo Sacramento é um jorro expelido através das ferramentas do cinema. Riocorrente se apresenta como o desencontro de quatro personagens para, a cada bloco de ação, desprender-se de quaisquer compromissos com o realismo, a ordem, a lógica, o concreto: as questões a rodear o crescendo imagético do filme são da ordem de um tipo de liberdade tão arriscada quanto necessária, tão próxima do desastre quanto o registro do próprio desastre (dos personagens, do filme, da vida, do cinema). Como em outros dois longas de ficção exibidos no Festival de Brasília 2013 (Depois da Chuva e Avanti Popolo), Riocorrente parte de pontos de ignição relativamente claros (o cotidiano de dois homens, uma mulher e um garoto de rua) para descambar na constatação do fracasso e na impregnação da desilusão pela materalidade mesma do filme. Riocorrente nega a narrativa e abraça o simbolismo por assumir não dar conta de olhar para o mundo com olhos menos afetados. Paulo Sacramento olha para o mundo com "olhos livres" (na expressão imortalizada por Carlos Reichenbach, a quem Riocorrente, aliás, é dedicado) e assume as consequências disso a cada novo plano.

Os diálogos se tornam impossíveis em Riocorrente, pois não se trata de um filme em que as ações geram reações. De fato, é um filme apenas de reações, pois as ações vieram antes de seu início e pesam sobre os ombros de cada personagem. O mal-estar está instalado desde o plano inicial e pode ser sentido logo na primeira cena, quando o garoto arranha um carro com o estilete. O som e a imagem são de incômodo, e esse cartão de visitas do filme será mantido e potencializado cena a cena. Riocorrente irá acompanhar a subjetividade de seus personagens, levando para a imagem e o som os delírios que lhes atormentam. As respostas mentais aos estímulos selvagens do mundo são sempre de ordem também da selvageria; elementos como fogo, água e sangue se tornam essenciais nesse choque com a frustração e a não-adequação. Sacramento filma o ato sexual com ardor desesperado (como, muitas vezes, o sexo de fato assim se apresenta), implode e explode objetos (reais ou imaginários) e permite a um personagem incediar-se e incendiar o rio Tietê, este espaço natural por onde toda a sujeira do universo parece se sedimentar (ambiente recodificado a partir de outro filme provocador à sua maneira particular: o fundamental A Margem, de Ozualdo Candeias).

Por vezes o excesso de símbolos e metáforas - os aspectos poéticos e libertários, afinal - periga sufocar o filme, inclusive por não permitir que determinadas cenas de teor muito forte ganhem autonomia. O rigor de Paulo Sacramento, porém, em abraçar sem pudores cada um dos elementos os torna mais vigorosos do que a simples exposição na tela. Devedor de um estilo selvagem não apenas na apresentação do conteúdo do filme, mas especialmente na forma como expõe esse conteúdo, o diretor se preocupa pouco com sutileza e carrega Riocorrente de elementos interpretativos, de lances que, quando parecem estar firmes na nossa mão (no nosso olhar), escapam no instante seguinte, quando tudo vai pelos ares. 

Riocorrente tem pegada muito paulistana, pela da captação do estado de espírito de uma metrópole desesperançada naquilo que deveria ser, mas não é. A fragmentação aqui registrada se imbui do sentimento de quem parece não coadunar com a maneira como essa metrópole se movimenta. A universalidade de Riocorrente está na impregnação desse sentimento para além do concreto de São Paulo e da sujeira do Tietê. A cabeça flamejante é metáfora visual tão óbvia quanto incontornável do atual momento em qualquer grande espaço urbano por onde as pessoas circulam apenas preocupadas em não trombar com quem estiver  à frente. O ato terrorista simbólico que Riocorrente encena no desfecho é a resposta cinematográfica - excessiva, imperfeita, hiperbólica, mas não por isso destituída de relevância e significado - ao mal-estar presente em cada um de seus enquadramentos.

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