46º Festival de Brasília – Competição – Dia 6

por Marcelo Miranda

Curta ficção:

Tremor (MG), de Ricardo Alves Jr

O trote do cavalo, filmado num travelling em primeiro plano, é o mesmo trotar dos demais personagens a circularem pelo mundo assombroso deste curta-metragem. A crina do cavalo é análoga às tranças de Elon Rabin, figura que acompanharemos numa jornada “ao inferno”, como define o diretor. Tal afirmação se justifica esteticamente ao longo dos poucos minutos de filme, diante da evidência de Elon sempre descendo, e apenas descendo, as mais variadas escadas, muitas delas caracol, em movimentos que parecem torcer seu corpo mais e mais para dentro de si mesmo. Num determinado instante dessa caminhada sem fim, a imagem escurece, e ficam apenas os sons; logo se abre uma porta, e o branco das paredes de um necrotério invade o olhar do espectador. Filmado quase sempre de costas, acompanhado por uma câmera-sombra que não o abandona, Elon Rabin apenas se deixa ver os olhos no plano final do filme. E ele encara diretamente a câmera (o espectador), como a pedir para que compartilhemos de seu instante íntimo e delicado, mas também como se nos condenasse por estarmos seguindo seus passos até ali. Elon Rabin é um enigma, um fantasma a circular pelo filme, como eram também fantasmas que habitavam os espaços dos filmes anteriores de Ricardo Alves Jr.

Longa ficção:

Exilados do Vulcão (RJ/MG), de Paula Gaitán

Tentando atingir (…) a essência de sua arte, ele (o artista) empenha-se num combate em que o que está em jogo é a sobrevivência de sua sensibilidade, garantida pela própria vida de sua arte. Ele transmite a um traço, dotado por si mesmo de uma sensibilidade própria, a diligência de perpetuar para sempre a riqueza de uma consciência íntima.”


(Jean Douchet, 1961)

O olhar e o pensamento crítico para uma obra como Exilados do Vulcão serão tão mais justos quanto mais verticais eles sejam. Pois o filme de Paula Gaitán é, na essência, um filme vertical, no qual o encadeamento de um plano não se liga direta ou objetivamente ao plano seguinte por vias tradicionais de causa-efeito. O que une os fios entre os fragmentos de Exilados do Vulcão é uma sensibilidade talvez impossível de ser exprimida em palavras, justamente porque se trata de sensibilidade cinematográfica, acima de tudo artística. O crítico que se desafiar a esgotar o filme de Gaitán terá diante de si, desde o primeiro instante, uma empreitada fracassada. Não se esgota um trabalho como este, justamente porque ele será sempre inesgotável e inescapável à sua própria concepção como fluxo telúrico de imagens e sons, como olhar cosmológico a intimidades que sempre vão nos escapar. A câmera de Paula Gaitán adota o ponto de vista do sentimento, do inefável, do interior de corpos e espaços – e, por isso mesmo, essa câmera nunca responderá concretamente àquilo que ela está captando diante de si.

Por analogias possíveis com os cinemas de Claire Denis, Terrence Malick ou Marguerite Duras (e algum contato próximo a O Viajante, de Paulo César Saraceni, e não apenas pelas paisagens mineiras), Paula Gaitán propõe algo único e particular, inserindo espectros (não parece fazer sentido utilizar o termo “personagens” num primeiro momento) que não se comunicam diretamente uns com os outros (porque a base do contato no filme é o sentimento íntimo) em embates conflituosos ora com a terra e a natureza, ora com o concreto da grande metrópole, ora com os corpos seus e dos outros. Esses espectros flutuam pelas cenas, ganham corporificação através da imagem e se misturam (ou se fundem) ao espaço onde habitam. As curvas do corpo deitado da atriz remetem às montanhas do interior de Minas Gerais por onde ela perambula, assim como a escalada pedra acima do ator o torna próximo de uma das pedras por onde ele procura se equilibrar.

Um dos leitmotivs essenciais de Exilados do Vulcão são as polaroides, peças de um quebra-cabeças nunca montável. Polaroides, por definição, são fotografias instantâneas, registro imediatamente físico daquele segundo em que a luz invade o interior da máquina. Todo o filme de Paula Gaitán será construído como um álbum de polaroides scope em movimento, instantes únicos captados pela câmera (como se outros não fossem possíveis de estar ali, apenas aqueles aos quais assistimos) que se prolongam indefinidamente, até que a montagem defina qual vai ser o instante seguinte a ser exibido – e, a cada nova “polaroide” do filme, outras articulações sensíveis precisam ser feitas pelo espectador, porque Exilados do Vulcão, se não se finca na narrativa tradicional, nem por isso deixa de completar sentidos e significados a cada enquadramento e a cada corte. A neblina que surge vez ou outra em cena se assemelha ao processo invertido da polaroide: a imagem vai se desintegrando, o corpo desaparece no branco da neblina, logo não sabemos o quê nem para onde mais olhar, e então a montagem dá o corte e nos recoloca em outro estado de suspensão, em outra “polaroide” em movimento que invariavelmente também desaparecerá de alguma forma.

Estamos no terreno dos mistérios da carne e da mente, de afetividades interrompidas, de amores que não se completam, de memórias que insistem em não se encaixar. A impactante utilização da trilha sonora musical (indo da música erudita ao pop contemporâneo) e algumas digressões visuais que reconfiguram as linhas de força da imagem e mesmo a textura do que é visto e sentido nos inserem num outro estado de intimidade e relação com o filme, ao permitir que sons e espaços “externos” invadam os fluxos continuados de longos planos que se constroem numa precisa mise en scène. Paula Gaitán traz para dentro de Exilados do Vulcão todo o universo – não a megalomania da compreensão do universo, mas uma noção de como representar, pela arte, um único universo, recortado pelo olhar da cineasta num misto de rigor formal e despojamento estético que se coordenam quase num milagre de apreensão. Somos todos exilados deste vulcão fílmico, pois possivelmente nunca seremos capazes de atingi-lo completamente. Mas, como o homem que escala as pedras, nunca deixaremos de tentar. 

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