Educação Sentimental (2013), de Julio Bressane

 

... na ideia de um ‘espírito fantástico’, sujeito da sensação, dos sonhos, da adivinhação e dos influxos divinos, sob cujo signo se cumpre a exaltação da fantasia como mediadora entre o corpóreo e o incorpóreo, entre o racional e o irracional, entre o humano e o divino, e o mais próximo do conhecimento do divino...

(Giorgio Agamben)

As coisas surgem de uma maneira inesperada, muitas vezes, e se você deixar, você vai ver que essas coisas são misteriosas, e você tem um papel quase de receptor... Algo como um médium... que passa por você. Que não sabe o que te fez fazer esse filme. É uma coisa misteriosa.

(Julio Bressane)


por Marcelo Miranda

Pela espectorialidade das imagens e dos sons, do poder hipnótico de corpos se sacudindo ou se estrebuchando em caretas, rompantes físicos, movimentos ritualísticos e sensuais, floreios de braços e pernas atravessados pelo olhar da câmera (nunca o inverso), fragmentos verticais ora de contemplação, ora de pura ação do plano, o olhar diretamente para o espectador, frontal, bruto, cúmplice – por tudo isso, e um tanto mais, o cinema de Julio Bressane segue nos movendo à queda num despenhadeiro no qual jamais atingimos o fundo, restando-nos incorporar as sensações que o movimento proporciona ao corpo e à mente, nos desligando do que ficou lá em cima e nos despreocupando do que pode vir a existir lá embaixo. O caminho de um ponto a outro – o processo, muito mais do que o ponto de partida ou de chegada –, eis a entrada aos “influxos divinos” dos quais fala Agamben e presentes com mais força nos trabalhos de Bressane dos últimos 20 anos.

Bressane é o “espírito fantástico” analisado por Agamben a partir de outras leituras filosóficas e cujo ponto central é a relação do “fantasma da melancolia” com aquilo que a visão e o sentimento buscam refletir através da imagem, “gerada a cada instante de acordo com o movimento ou a presença de quem a contempla”. Educação Sentimental traz ao escopo fílmico uma certa noção de perda, de distanciamento da imagem verdadeira, rumo a uma imagem construída que se revela, ela mesma e por sua característica de construção, a imagem verdadeira. Para isso, o trabalho na película 35mm é fundamental na apreensão do filme, visto que ele fala da perda de um tipo de inocência da imagem que atravessa diretamente as atuais mudanças tecnológicas da projeção em película para o formato digital. Educação Sentimental é ele todo um filme de constatações, lançando diretamente em sua tessitura (física e estética) as questões que trabalha dentro (e fora) dos enquadramentos.

Áureo e Áurea, os dois “fantasmas” a circular pelo filme, surgem como eventuais personagens de uma trama inexistente que será implodida a cada novo plano. Quando surge uma terceira pessoa (talvez a única figura em cena que pode ser considerada propriamente um “personagem”), Bressane a filma num código de representação próximo do melodrama, como se reforçasse o falseamento por sua mera presença. Educação Sentimental será tanto a transliteração do mito de Endimião, conforme nos informa Áurea nos minutos iniciais, quanto a impossibilidade de sua representação num mundo já cansado de histórias, ficções, mitos e fábulas. Tudo já foi feito, resta agora fazer de novo e de novo, retrabalhando as bases para que algo de original surja a partir desse retorno ao estado inicial da arte – não seria esta a característica essencial de certa arte barroca e também elemento inerente à toda a obra de Julio Bressane?

No contato com um contemporâneo hipersensorializado, hipermidiático e hipernarrado, o retorno ao básico das imagens e a revelação de suas estruturas e mecanismos – como se a nos lembrar a todo instante que a fábula é, essencialmente, uma história falsa que se quer verdadeira para dizer alguma coisa sobre o mundo –aproxima-se da reeducação do olhar, da filtragem das percepções, de um “eterno retorno” nietzcheano em que o ponto de volta é muito diferente se comparado ao mesmo ponto na passagem anterior. A “educação sentimental” propalada no título não está em via de mão única e nem em sentido literal: existe pelo básico, pelo primitivo mesmo, de retomar as raízes dos sentimentos e dos afetos, na ânsia de que eles ressurjam diante de alguma nova era ainda a ser anunciada e da qual o filme parece se assumir como desconectado (e, evidentemente, consciente de seu lugar de desconexão).

Não se esgota um filme como Educação Sentimental, nem hoje nem nunca. Como peça fina e rara, está ele num ponto cósmico para o qual nos resta admirar e tentar tocar, com a absoluta liberdade que ele permite de ser apalpado. O cinema de Julio Bressane é um cinema generoso, aberto, autêntico, passível de caminhos dos mais surpreendentes e delirantes, nos quais o prazer está em se deixar perder nas suas entranhas de indefinição e fascínio. É um cinema do convite, do flerte e da sedução, um cinema que pulsa e impulsiona, ora se desviando de nossas investidas, outras se entregando completamente. Assim como, para Bressane, a criação artística lhe surge de maneira misteriosa, o fascínio que sua arte nos causa está na categoria do inefável, da transubstanciação do elemento concreto (a máquina fílmica, a câmera, todo o aparato industrial) para o sensível (a afecção, o impacto, a comoção – o sentimento, afinal).

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