Curtas Série 4: “Noite de Serão”, “Terra”, “Vermelho Desbotado”, “Dez Elefantes” e “A Espera”

por Gabriel Martins

 

Noite de Serão

 

Noite de Serão é uma obra que dialoga diretamente a sua proposta narrativa com o universo de seus personagens. Conta a história de cinco homens de cerca de 30 anos que se recusam a assumir qualquer compromisso na vida e, portanto, passam o dia sem fazer nada. De forma rigorosa, o diretor Fernando Secco coloca o conformismo em relação às dificuldades da vida – quem não tem peito pra enfrentar fica ali, em um sofá na calçada – de maneira discretamente triste. Se o humor presente nos diálogos e situações pode inibir o espectador de perceber parte da melancolia presente ao longo do filme, certamente ela se faz mais clara nos “50 centavos” do sutil plano final. Narrado em enquadramentos predominantemente fixos que utilizam o tempo lento como uma forma de acompanhar a monotonia dos seus personagens – o diálogo citado na frase inicial do texto -, Noite de Serão é um curta-metragem que consegue transitar entre a ambição cinematográfica (pode-se perceber uma influência do cinema oriental, como o de Jia Zhang Ke) e a possibilidade de um diálogo fácil com o público (as reações após o filme demonstram esta impressão), algo que, somado às outras virtudes já citadas, acabo por torná-lo um grande filme.

 

Terra

 

Em sua obra anterior, Mercúrio, Sávio Leite não me convenceu. Por mais que contenha uma idéia de expressão marginal de animação, o filme não era o bastante para poder provocar algo além da pura experiência visual. Já este novo, Terra, me pegou. Se a proposta de retratar os planetas (presentes como títulos de outras obras do realizador) nos possibilita vislumbrar a alguma alusão ou referência, pode-se dizer que uma animação conturbada e caótica como esta consegue compactar algum tipo de experiência possível de ser filosofada sobre o nosso planeta. Narrada de forma instigante por Paulo César Peréio, a animação ainda se utiliza de uma trilha tensa (PexBaa), que nos coloca o tempo todo na vertigem da animação ali feita. A sensação é a de um caderno com desenhos sobre desenhos, a de complementaridade do traço ao mesmo tempo em que este próprio é subvertido em uma animação que não necessita de qualquer esclarecimento contextual: ela simplesmente existe. No todo, Terra propõe uma aproximação da realização da obra que nos traz a ausência de um começo e de um fim, como se o processo fosse eterno. E com isso, o nome “Terra” se encontra devidamente apropriado, titulando uma representação que, acima de tudo, propõe uma constante soma de traços e idéias - sendo que as idéias são, na verdade, os próprios traços.

 

Vermelho Desbotado

 

Um problema de vários curtas-metragens é ver no seu curto tempo de duração uma necessidade enorme de sintetizar várias idéias e, com isso, propor uma abstração muitas vezes exagerada. Como resultado, pode-se obter uma obra que, ao tentar dizer muito sobre tudo, não diz absolutamente nada. Vermelho Desbotado é um filme caprichado que simplesmente parece não dialogar com nada ou ninguém. Sentimentos tentam ser apresentados através da ausência de luz, enquadramentos bem posicionados e uma direção de arte de trabalho mais que visível, mas, no fim das contas, o que permanece é uma proposta que não consegue abarcar a atenção ou simplesmente o interesse. Do visual parte e no visual morre.

 

Dez Elefantes

 

Talvez a grande proeza desta produção carioca seja realizar uma obra de montagem complexa (o amigo polvo João Toledo citou Eisenstein), que brinca com a temporalidade e, ainda assim, não nos descentrar da singularidade do cenário. Dois irmãos experimentam a vida em um sítio. A menina, de forte presença em cena e que acaba tomando a dianteira, passa por situações da infância que o filme busca retratar por um prisma sensorial bem interessante. A fotografia tem um papel central nesta busca: rodado em 35mm, o filme tem um aspecto fotográfico e documental, com tons escuros e desbotados que remetem a uma memória revisitada. E de certa forma a proposta reside nisso,  em olhar a experiência somando a descoberta da vida – que muitas vezes se dá nos pequenos acontecimentos – com o modo de processamento destas informações na nossa cabeça (a montagem que vai e volta). No conjunto, Dez Elefantes proporciona um deslumbramento visual que não é gratuito, buscando refletir, na sua imagem, uma possível aproximação tátil com a natureza das coisas.

 

A Espera*, de Fernanda Teixeira

 

por João Toledo

 

Infelizmente, devido ao longo debate do último dia do festival – mediado, a propósito, pelo editor desta revista – cheguei atrasado à sessão e perdi o primeiro curta exibido, Guapé. O debate acabou atropelando também uma sessão de vídeos às 16:00 e o filme de Ricardo Miranda (montador fundamental do cinema brasileiro), A Etnografia da Amizade, sobre seu amigo, Saraceni, às 17:30. De toda maneira, não dá pra reclamar e dizer que não valeu a pena; o debate foi certamente um dos momentos-auge da terceira CineOP.

Infelizmente, devido ao longo debate do último dia do festival – mediado, a propósito, pelo editor desta revista – cheguei atrasado à sessão e perdi o primeiro curta exibido, Guapé. O debate acabou atropelando também uma sessão de vídeos às 16:00 e o filme de Ricardo Miranda (montador fundamental do cinema brasileiro), A Etnografia da Amizade, sobre seu amigo, Saraceni, às 17:30. De toda maneira, não dá pra reclamar e dizer que não valeu a pena; o debate foi certamente um dos momentos-auge da terceira CineOP.

Cheguei a tempo, no entanto, para o segundo curta-metragem...

A Espera, segundo curta-metragem de Fernanda Teixeira, é trajado de uma ambientação e uma temática que em muito flertam com a obra literária de Gabriel García Márquez. E ela faz questão de não esconder esse flerte, presente no nome de sua produtora, “Buendía Filmes”, uma referência a Cem Anos de Solidão que, não por acaso, é o livro que o personagem lê em cena. O detalhismo do universo peculiar dos personagens, o retrato cuidadoso de sua rotina e a adjetivação rica e volumosa presentes na narrativa fantástica do autor colombiano, surgem aqui, não em palavras, mas nos vagarosos movimentos de câmera em travelling, revelando aos poucos o espaço e os elementos que cercam o dia-a-dia do velho – a supressão da palavra dá incrível força à descrição da câmera, às imagens sufocantes de solidão e morte.

Todo o curta se passa na no sítio onde o homem idoso divide sua solidão com o cão. A casa parece um museu de animais empalhados, em todos os cômodos e por todas as partes; a morte está por toda parte, está mais presente que a vida. Entre alimentar o cachorro, ler seu livro, jogar xadrez e passear no quintal, o velho se revela envolto por uma rotina rodeada de morbidez; além dos animais mortos, ele lustra um caixão negro que habita o centro da sala e procura os obituários dos jornais para riscar de sua agenda o nome de falecidos.

Como em Gabriel García Márquez, a solidão é o ponto chave da construção. Ao contrário de Ninguém Escreve ao Coronel, no entanto, a espera aqui é muito menos por algo externo, físico, que pela própria morte. À medida que o tempo passa, além de ter cada vez menos laços no mundo, se enxergar cada vez menos pertencente a ele, o velho vai findando todas as relações com o cotidiano. Conclui seu livro sobre o fim de uma estirpe e de toda a memória dela, varrida da terra por um furacão; lustra seu caixão; termina o vinho; as palavras-cruzadas; acaba a partida de xadrez que joga consigo, numa brincadeira anti-metafísica de diluição da noção de destino e de uma morte que viria em sua busca. Ao contrário do jogo em O Sétimo Selo, onde o personagem desafia seu destino para continuar a viver, aqui o destino está nas mãos do personagem, é algo que emana dele. O fim desse jogo é o prenúncio do que está por vir. De maneira resoluta e fria, tratada da maneira mais seca possível, o velho pega a espingarda e tira a própria vida. A rotina segue sem ele, o cão agora espera, espera pelo velho que lhe dava comida, que caminhava com ele; espera, sem saber, sua própria morte, fechando o ciclo de solidão daquele sítio e se tornando o último cadáver da coleção.

*Texto escrito para a 3ª Mostra de Cinema de Ouro Preto

 

Filmes citados:

Noite de Serão (idem, 2008/ Fernando Secco)

Mercúrio (idem, 2007/ Sávio Leite)

Terra (idem, 2008/ Sávio Leite)

Vermelho Desbotado (idem, 2007/ Bárbara Svhulte Lucin)

A Espera (idem, 2007/ Fernanda Teixeira)

Dez Elefantes (idem, 2007/ Eva Randolph)

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