Histórias de Morar e Demolições

por Ursula Rösele

 

Histórias de Morar e Demolições pressupõe uma espécie de filme narrativo baseado em casos, relatos sobre experiências de moradia e a desconstrução iminente, não somente do espaço físico, como da memória que esse espaço revela. A escolha pela exibição deste filme em particular, após filmes como Filmefobia, Acácio, Nos Olhos de Mariquinha, A Casa de Sandro, dentre outros documentários que suscitaram variadas reflexões sobre o dispositivo, suas subversões e artifícios, é muito interessante, principalmente por levantar questões muito ricas após o contato com as outras obras dessa Mostra.

 

Inicialmente, o filme parte da exposição do denominado “mecanismo de captação de personagens” pelo próprio diretor/também personagem, num prólogo que muito se assemelha à estrutura de documentar de Eduardo Coutinho. Une-se - após imagens de uma máquina que somente depois saberemos se tratar de uma impressora - a narração em off do diretor André Costa a imagens dele e de sua equipe preparando seu dispositivo. Toda essa predisposição a um filme “Coutiniano” se dissolve aos poucos, quando o filme toma alguns rumos diferenciados de abordagem, seguindo um ritmo que – se montado em sua ordem cronológica – nos permite construir diversos raciocínios à medida que ele se desenvolve.

 

Segundo André Costa este é um filme sobre a memória e sua manutenção. Esta é, talvez, a questão literal que o filme aborda, mas ele certamente não se prende somente a isto, indo para diversos outros lugares não somente de simbolismos e experimentos com a linguagem, como de reflexão dessa questão saudosista que geralmente “filmes sobre a memória” evocam. Nesse caso, o argumento se apresenta na percepção natural de um processo urbano, no qual invariavelmente a verticalização acaba por se tornar necessária em uma cidade de amplo crescimento, como é o caso de São Paulo, ainda que se saiba que este é um processo que merece certo cuidado, uma vez que é não somente doloroso para os proprietários como até ilegal do ponto de vista do trato das construtoras para com eles.  Ou seja, sabe-se que muitas casas são demolidas nesse processo, mas não se sabe de que maneira essa decisão afeta os seus moradores. Histórias de Morar, portanto, é um filme que se constrói em seu durante, uma vez que determinadas conclusões acerca desse pressuposto apego só poderão ser alcançadas no seu seguir.

 

Costa usou de um artifício semelhante ao da cineasta Marília Rocha (Acácio): a idéia de um duplo registro, mais literal em Histórias de Morar e mais poético em Acácio. Marília, após a imersão no universo do Sr. Acácio e de sua esposa, vai aos locais que ela conhecia através da lembrança de outrem, para, enfim, construir sua própria memória. O resultado está nas imagens captadas por Acácio quando esteve nesses lugares, suas memórias narradas e o filme-memória de Marília se relacionando com esses espaços. André Costa anuncia através de flyers e faixas sua intenção de “montar memórias” descritas de maneira que os moradores das casas a serem demolidas possam, metaforicamente, levá-las com eles. Para isso, entrega a eles uma máquina fotográfica e para alguns (o filme não deixa claro se ele se utiliza dos mesmos mecanismos com todos eles) uma pequena câmera digital para que possam registrar os lugares da casa que significam muito para eles e os sons que gostariam de guardar.

 

Diferentemente de Marília, Costa não revela quais são as imagens captadas pelos seus personagens (somente em um momento que ele aparece olhando uma das fotos com a moradora), apenas sua maneira de “re-registrá-las” através de um olhar seu (fica aí a dúvida: será mesmo este um olhar do diretor?), totalmente absorto no olhar do outro, que praticamente o dirige. A fusão aí se dá em um âmbito curioso, do diretor/personagem, do personagem/diretor. Uma vez que aqueles moradores não parecem ter ligações com o fazer cinematográfico, as potencialidades estéticas de retrato daqueles ambientes não se tornam algo importante, relevante do ponto de vista cinematográfico. Nesse caso, surgem algumas questões: até que ponto a interferência dos moradores transforma este registro e até onde vai a liberdade criativa de André Costa? Vem à memória um curta-metragem chamado Saba, no qual seu diretor, Gregório Graziosi, faz uma homenagem a seus avós a partir do registro de seu apartamento, utilizando-se de belíssimas imagens de desgastes do espaço (falhas na pintura, amassados nas panelas, rasgos nos móveis) como forma de metaforizar o desgaste do próprio tempo, na morte iminente daqueles aos quais pretende memorizar.

 

O espaço, no caso do curta citado, serve como elemento simbólico de um sentimento maior ali, que está centrado em seus avós. No caso de Histórias de Morar, há uma questão muito delicada, pois, a partir do momento que se define o dispositivo e ele é denominado de “vídeo-àlbum”, aquele espaço se torna um elemento fragmentado de uma memória a ser projetada a partir do oferecimento de sua materialização. Ou seja, Costa se vê compelido a reproduzir um pré-enquadramento já definido pelas fotos dos moradores e, ao ocultá-las do espectador, deixa em aberto os limites de sua criação. Apesar de ser uma estratégia muito interessante, o filme perde um pouco sua intensidade (artística, talvez) ao denotar um interesse mais intenso pelo dispositivo que pela exploração estética daqueles relatos, daqueles fragmentos, dos sentimentos e sensações que poderiam exalar daquela relação espaço-criação-criador. Costa parece buscar muito mais uma resposta, que desenvolver um tratado da memória, um lugar no qual, ao emergir, o espectador também materializa aquelas sensações.

 

O uso do som é um dos maiores méritos de Histórias de Morar. Seu registro é explorado de diversas maneiras, sendo a mais curiosa delas o fato de estar inteiramente atrelado ao verossímil. É um filme que limita (até no bom sentido) seu diretor em alguns aspectos, uma vez que o som registrado é (e pressupõe-se que seja) o som “real”, que deve ser guardado e sua exploração só poderia ser obtida na exacerbação desses “barulhos”, em sua utilização em tela preta, aliada a imagens do próprio lugar do qual ele emana e de sua junção a outras imagens.  As escolhas, portanto, são muito felizes, pois o som revigora o extracampo do filme, dando um sentido além-quadro. Essa exploração é muito intensa, pois temos ali muitas vozes, preparações dos planos sendo discutidas fora deles, uma rua que não aparece, mas cujos “barulhos” estão a todo momento presentes. Há um filme para além daquela memória, como se uma memória do próprio filme. E esse sim fica para os que não pertenceram aos relatos daqueles espaços.

 

*Visto na 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

Filmes Citados:

Saba (idem, 2007/Gregório Graziosi e Thereza Menezes)

Acácio (idem, 2008/Marília Rocha)

Histórias de Morar e Demolições (idem, 2007/André Costa)

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