Canção de Baal

  Canção de Baal                                                                                      

                                                                                 por Nísio Teixeira 

Assistir ao longa de estréia de Helena Ignez é importante e necessário. É Rimbaud. É Artaud. É Jim Morrison.  Na sessão de Tiradentes, colocado antes da sessão de Loki - Arnaldo Baptista  e, magicamente, depois de uma  tempestade que despencou  precisamente no início do filme – Baal é, entre outras coisas, deus da chuva, advertência colocada pela diretora, ao apresentar a sessão – só reforça o caráter de múltiplas convergências presente no filme. Enumero simples – mas complexas – três delas.

 

A primeira é, como visto na lista de abertura deste texto, a inserção do filme no registro, ou mais que isso, na tradição daqueles que propõem uma defesa da provocação dionisíaca de mundo, no momento em que esse mesmo mundo se apresenta cada vez mais racionalista, metódico, careta, enfim – até mesmo, em alguns casos, na maneira de se fazer cinema. O filme é um sopro de vigor numa juventude que hoje clama pela errância, pela ausência, pela pseudomilitância – vigor reforçado nas letras e nas canções que permeiam todo o longa.

 

A segunda convergência, mais evidente, na tradição alegórica do cinema brasileiro, diagnosticada como rara ou pelo menos em crise na filmografia atual. Ignez soube recuperar a força desse cinema, embriagada pelas soluções de Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, de quem esteve tão próxima – o que só reitera a idéia de ruptura entre vida e obra proposta pelos cânones da primeira convergência.

 

A terceira é mais evidente ainda, pois o filme se apresenta como uma adaptação livre de Baal, de Bertold Brecht, primeira peça escrita pelo dramaturgo, quando tinha cerca de 20 anos. Ignez faz ainda uma associação dessa peça (e eu diria carreira) brechtiana com a comprovação da Teoria da Relatividade de Einstein: ambos foram iluminados por suas descobertas no ano de 1919. O filme ainda é entremeado pelo luminoso depoimento de Brecht ao Comitê de Atividades Anti-Americanas, de Joseph McCarthy, na época em que o dramaturgo morou nos EUA e foi acusado de comunista.  Brecht, a quem era imposto o toque de recolher e a acusação de revolucionário – que ele aceita com prazer – parece querer, ao final de seu depoimento, quando menciona o cinema, e reforçado através da proposta do filme, repassar adiante sua inquietação.

 

Cenas memoráveis: a abertura, com Baal (Carlos Careqa, genial, também como Einstein) no seu devido lugar, no alto de um morro, tocando piano; seguido por bacanais e orgias – uma delas com Simone Spoladore, esplêndida –, quando Baal tenta, em alguns momentos em vão, levar para o âmbito do teatro (ainda que de cabaré), o que representa, voltando ao início, a necessidade do equilíbrio dionisíaco que já havia sido diagnosticado por Nietzsche no século retrasado. E as tentativas posteriores de um Rimbaud, Artaud, Ginsberg, Morrison...   O filme termina com o vigoroso rap para Baal, que espero não demorar muito tempo para reouvir,  enquanto Baal dança iluminando os caminhos e passando o cetro da festa para a nova geração.  Canção de Baal é, enfim, isso mesmo: uma farra boa.

 

Filme citado

 

Canção de Baal (idem, 2008/Helena Ignez)

Leia novidades instantâneas em nossoblog.