
por Ursula Rösele
Dentre o território por vezes indefinível de gêneros cinematográficos, pode-se dizer que lá está Lingston Perli Cherliê. O filme transita por diversas instâncias narrativas, numa experiência que denota mais o experimento em si que sua própria definição concreta. Já de início nos confrontamos com a questão da identidade ser conferida pelo nome (“Sou Pedro”, “Eu sou Lingston Perli Cherliê”), de uma ideia da identificação do eu se dar através do registro. Uma vez a câmera ligada, eu sou o que me faço de mim defronte a ela. Sou um nome, uma persona, nome completo.
Lingston, portanto, é Lingston. Mas é também Sr. Levindo, vizinho de Pedro, personagem que encontra Pedro perdido, documentarista, inventor, ator do filme. Lingston dirige e é dirigido. Pedro é uma criança que poderia ser neto de Levindo, desta vez, dirigido por Lingston. À época do filme de Levindo, Pedro era pequeno a ponto de não se lembrar daquelas cenas. O cinema ali exerce um papel para além da memória. É ele que remonta uma lembrança esquecida pela idade pouca. Ou seja, aqui, o cinema é a própria memória de Pedro.
Esta estratégia exercita uma reversão do padrão clássico de documentário como um registro da memória de outrem. Em Lingston, a memória é elemento do próprio filme e não objetivo primeiro dele. Poderia se dizer que seu dispositivo é a quebra da noção de dispositivo, alternando-se a cada nova inserção, seja ela do personagem, do ator, do diretor (Lingston) e dos diretores (autores do filme). Em determinado momento, uma voz em off pergunta a Lingston como acaba aquela história. Ou seja, há ali a permissão para a narrativa se dar através do instante, da espontaneidade e principalmente de sua impossibilidade de definição. Afinal, quem determina o fim da história?
Filme Citado:
Lingston Perli Cherliê (idem, 2009/André Vieira Dias, Bernard Belisário, Gerson Diego Gonçalves e Ingrid Tatiene das Neves)
*Visto na 4ª CineOP.