Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro

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por Rafael Ciccarini

 

Um Lugar ao Sol já é o filme-polêmica de Tiradentes 2010: minutos após sua exibição já se percebia nas rodinhas a polarização pró e contra, agitação natural para um filme que busca essa polêmica já de saída: trata-se de um documentário feito a partir de entrevistas com moradores de coberturas de luxo em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

 

Dialogando com o curta Vista Mar, anteriormente exibido na Mostra - ambos partem de ardis, de armadilhas montadas para chegarem onde desejam, mostrar o que querem, terem acesso a um universo ao qual não pertencem e provavelmente não alcançariam de outra forma. No entanto, no caso de Um Lugar ao Sol, as pretensões parecem ser maiores; quer-se aqui um filme que lide com o que até agora supostamente não se fez de maneira direta no cinema brasileiro: a elite. E aqui esta classe tão real quanto imprecisa, tão nítida quanto heterogênea aparece “representada” por nove moradores que serão ouvidos pelo filme.

 

Um primeiro ponto chave aqui, antes de tudo, é a opção do filme por não nos apresentar as perguntas realizadas a esses personagens. Se os vemos em declarações constrangedoras, ridículas, abjetas, preconceituosas, arrogantes ou quaisquer adjetivos que queiramos (com ou sem razão) lhes impingir a partir do que vemos, nos são negadas as perguntas que as motivaram.  Isso, claro, faz toda a diferença na medida em que estamos falando de um filme em que os realizadores estão francamente contra seus entrevistados. Em que medida são relevantes depoimentos obtidos a partir de um quase assumido vale tudo ético?

 

Além disso, o filme tem uma fragilidade fundacional, que repercute em seu resultado final: qual é, afinal, a relevância de ouvirmos especificamente moradores de coberturas? Eles de alguma forma representam a elite? E porque não os das mansões ou os de condomínios fechados? E ainda, apenas nove desses proprietários são ouvidos: de que são representantes?  Por fim, dessa precária premissa, o que resta são alguns poucos personagens que nem mesmo foram escolhidos: ali estão porque, por vaidade, ingenuidade (vai saber) se deixaram levar pela armadilha proposta pelos realizadores.

 

Pode-se argumentar que o filme está interessado em questões tais quais: paisagem urbana, verticalização e, um pouco mais a fundo, em como estes fenômenos arquitetônicos se relacionam com o comportamento das pessoas e vice-versa. Estaria justificada, portanto, a escolha das coberturas como o foco da abordagem. O problema é que o filme, a despeito de um ou outro momento de inspiração visual (em especial imagens de Recife) e esporádicas falas dos personagens que tangenciam a questão (como a que a moradora se vê inserida na problemática da violência urbana por poder ouvir, do alto, o som dos tiros da guerra do tráfico),  não dá conta de produzir alguma reflexão mais potente ou que saia dos clichês já conhecidos sobre esses temas.

 

Em verdade, escondido pela aura da suposta bravura e coragem de “encarar” uma elite até então absolutamente protegida, segundo o discurso do filme, Um Lugar ao Sol é carente de foco, volta sua questionável artilharia basicamente para ninguém (do ponto de vista da representatividade) ao mesmo tempo em que expõe sem pudores as pessoas que está colocando em tela.

Claro que, uma vez que o filme lá está, cada um terá sua relação subjetiva, ética e política com cada um dos depoimentos: a mim, por exemplo, não incomoda ver ridicularizado alguém como o personagem dono de uma famosa boate de prostituição de luxo, alguém que não tem qualquer pudor ao afirmar que “nos aviões, há a primeira classe, a segunda e a senzala”, que expõe suas idéias com pleno orgulho do que elas significam ou representam. Mas qual é o limite disso? A partir do momento em que se despreza uma pessoa ou um grupo delas automaticamente se está livre para lançar mão de todo e qualquer artifício para lhes impor a humilhação, a derrota?

 

Se de fato é engraçado e/ou espantoso ouvirmos um personagem dizer que “frequenta os melhores hotéis, restaurantes, relógios...” (seria ele um habitué do Big Ben?), vermos uma senhora cujo cachorro – empalhado - se chama Bush e cujo filho remete a uma versão ainda mais perturbada de Norman Bates, ouvirmos um rapaz dizer que “as pessoas me chamam de playboy mas meus pais trabalharam muito pra eu estar aqui”, e a uma mãe chamar o filho balzaquiano de adolescente, essas cenas funcionam muito mais como uma ficção bizarra do que algo advindo de alguma relação mais complexa e ponderada com o real. Na ficção, tudo bem; no documentário, nem tanto: ainda que as fronteiras entre ambos sejam tênues ou inexistentes de vários pontos de vista, no que tange à ética ela me parece bastante clara.

 

Jean-Luc Godard teria dito que Fahrenheit 09/11, de Michael Moore, é um filme pró-Bush. A boutade godardiana parece, aqui, reveladora: pode-se se equivocar tanto nas estratégias da abordagem do inimigo que o efeito pode ser o rigoroso contrário do pretendido. É outro o perigo ao qual Um Lugar ao Sol certamente está exposto e do qual não sai nem sairá ileso.  Trata-se, por fim, de um filme realmente marcante. E também condenável.

 

*Visto na 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Filmes Citados:

Um Lugar ao Sol (idem, 2009/Gabriel Mascaro)

Vista Mar (idem, Pedro Diogenes, Rubioa Mercia, Rodrigo Capistrano, Glaugeane Costa, Henrique Leão E Victor Furtado)

Fahrenheit 09/11 (idem, Michael Moore, 2004)

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