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Crítica:

 


por Rafael Ciccarini

Descessário dizer que abordar um fime de Godard, na correria de um festival como Cannes, é uma tarefa inglória. Assim sendo, façamos o possível, até porque, seja como for, um novo filme do francês é um evento forte demais para simplesmente ser ignorado por uma cobertura que se supõe crítica. Dito isso...

Film Socialisme é a afirmação frontal do anti-espetáculo sob as mais diversas formas e procedimentos, alguns deles caros ao próprio espetáculo: eis um filme de Godard, pois. Se um travelling é uma questão política, a ausência dele também o é, bem como a recusa quase total à transparência.  No entanto, trata-se  de um filme tão radical em sua proposta e tão abertamente ‘insano’ que mesmo os mais acostumados à filmografia godardiana não terão águas tranqüilas pela frente.

O socialismo, aqui, parece ser muito mais uma questão de linguagem: joga-se com os diversos e contraditórios sentidos que essa palavra tomou, não apenas como forma de ironia política, mas como objeto estético e cultural mesmo, como uma idéia que, se não se materializou enquanto projeto político, tornou-se cultura, história, presença e ausência. É um título irônico, portanto, sob vários pontos de vista, mas principalmente com ele mesmo enquanto um projeto que se sabe falho no seu nascimento: é antes uma provocação que um projeto.

O próprio jogo de Godard com as línguas é extremamente provocador. O filme é falado em francês e as legendas exibidas em inglês, porém, o que lemos nunca é necessariamente igual ao que é dito: o que temos são duas ou três palavras, que, se de alguma forma resumem o que é dito (ainda que sempre parcialmente), também podem ser unidas sob outros significados, em uma espécie de ideograma verbal autônomo, cuja combinação entre elas, e com as imagens se dão de forma autônoma, não inteiramente previsível.

Ou seja, é um filme dialético em sua medula, o que Godard pontua com inserções de Encouraçado Potemkin, emblema eisenstainiano da montagem dialética, que é mostrado em paralelo à imagens da Odessa atual, com personagens na mesma escadaria onde foi filmada a cena que encabeça antologias da História do cinema. Aliás, o filme se movimenta pelos lugares e cidades tendo como elemento central um navio, onde há personagens diversos: um filósofo (Alain Badieu), um embaixador palestino, um representante da polícia de Moscou, entre outros.  A partir de suas discussões, Godard cria outras, colocando em cena temas os mais diversos: holocausto, questão Israel/Palestina, Stalin, colonização da Argélia, colonização da América pela Espanha, entre outras, além de constantemente aludir à Europa de forma crítica e irônica.

Questões essas sempre caras a Godard, deve-se dizer. De certa maneira,Film Socialisme uma continuação de Nossa Música, onde já se coloca o discurso, tanto visual quando verbal, em crise, em um filme de três atos a partir da Divina Comédia. A “nossa música” agora é a própria estrutura do filme, antes sinfônica que narrativa, em nova aproximação com Eisenstein, que parece ser o paradigma maior de Film Socialisme: uma referência óbvia, retomada de forma nada óbvia.

 Não há, portanto, uma história, um enredo, há situações que se organizam conforme uma lógica própria que vai sendo pouco a pouco construída pelo filme. Totalmente filmado em digital, Godard assume a característica inevitavelmente sintética dessa imagem e escancara a falência do realismo baziniano em tempos digitais (o que fazer com ele, hoje?).  Parece, enfim, que depois de denunciar o aspecto conservador da linguagem em Nossa Música (lembrar de sua palestra onde aborda o uso de Hawks do campo e contracampo), tenta apontar novos caminhos, que passam pela dissolução da própria idéia de imagem (e do som), que muitas vezes estão em frangalhos, muitas vezes rastejando, em Film Socialisme.

*Visto no Festival de Cannes 2010

Filmes Citados:

Film Socialisme (idem, 2010/Jean-Luc Godard)

Nossa Música (Notre musique, 2004/Jean-Luc Godard)

 


Ficha técnica:

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